O fato que desorienta qualquer desavisado que tenta enquadrar as decisões e atitudes de Putin dentro do padrão “esquerda” ou “direita” é que elas simplesmente não se enquadram dentro desse padrão e isso está fazendo muita gente bugar pelo simples fato de que a Rússia hoje pratica algo que está fora do radar da maioria e nem mesmo os tais “especialistas” em política internacional parecem ter algo coerente a dizer sobre isso... Até agora, quando completou-se um mês do operação de guerra russa contra a Ucrânia (mas com certeza você vai ouvir falar disso logo, logo). 

Chama-se Quarta Teoria Política, ou eurasianismo. Acompanhe o artigo para entender melhor essa filosofia política que promete juntar nas mesmas fileiras esquerdistas, conservadores reacionários, anarquistas e até mesmo militantes da causa islâmica numa cruzada messiânica contra o “império do mal” do Ocidente; 

Entender o que está ocorrendo entre Rússia e Ucrânia como sendo um simples conflito de interesses entre o globalismo malvadão da OTAN e da ONU e o revide militar de um Putin alçado a defensor do conservadorismo e das tradições é deixar-se levar por explicações simplistas que deixam de apreciar várias questãos importantes no quadro geopolítico internacional. 

Uma dessas questões diz respeito ao fato bem documentado , mas ignorado por muitos de que não há um único projeto globalista, mas projetoS globalistaS, entre eles o projeto eurasianista do mentor de Putin, o filósofo Aleksandr Dugin, que prega o mundo multipolar, apresentado como saída ao plano globalista que seria um mundo unipolar sob o comando de uma tecnocracia “democrática” incorporada na UE, nos EUA e nos países membros da OTAN; 

O eurasianismo de Dugin, que também é chamado de Quarta Teoria Política, tem como meta suplantar as outras 3 visões que nortearam a política mundial desde o fim das monarquias absolutistas: o comunismo, o fascismo e o liberalismo; 

Para isso, ele pretende reunir dentro de um único sistema político toda doutrina ou tendência que enfatize o coletivismo contra o individualismo materialista que seria, segundo ele, a marca principal da decadência ocidental encarnado principalmente nos EUA que segundo ele é “uma praga absoluta para a humanidade” e que as sociedades abertas do Ocidente não passam de uma “heresia” que deve ser combatida com fervor revolucionário; 

Em recente entrevista a um jornal italiano, Dugin, falando como se fosse um legítimo porta-voz do Kremlin, fez declarações messiânicas sobre Putin e o papel da Rússia no mundo e sobre o uso de armas nucleares: Longe de ser apenas os delírios de mais um fundamentalista louco, as teses de Dugin são levadas muito a sério no Kremlin sendo muito próximo do governo embora hoje ele não tenha uma posição oficial no governo Putin e suas teorias geopolíticas seriam ensinadas na Academia Militar do Estado Maior russo. 

https://www.ilgiornale.it/news/politica/lideologo-putin-nato-e-usa-non-entrino-campo-o-useremo-2017600.html

Segundo o próprio, que tem sido comparada a um novo Rasputin, o eurasianismo, muito mais do que uma ideologia política, é uma “visão de mundo, um projeto geopolítico, uma teoria econômica, um movimento espiritual, um núcleo destinado a consolidar um amplo espectro de forças políticas”, sejam elas nacionalistas, socialistas e mesmo ligadas ao extremismo islâmico contra o “império da mentira” personificado nos EUA, para ele o centro do globalismo mundial (Só que não é, visto que as mentes por trás da agenda globalista ocidental não se identificam com bandeiras de países, mas formam, na verdade, um esforço entre dinastias metacapitalistas ocidentais européias de várias nacionalidades e também algumas personalidades americanas para justamente enfraquecer a ideia de nações fortes e independentes, fortalecendo órgãos supranacionais como a ONU – veremos o porquê disso mais adiante). 

Por isso, a Rússia de hoje tornou-se indecifrável ao entendedor médio que só consegue ver segundo a ótica do binarismo do “sou a favor” ou “sou do contra”; Então, vai lá o coitado do Zé Binário que, bombardeado por todos os lados por propaganda, seja da mídia globalista ocidental, seja da mídia comprada com petro rublos dos agentes pró-Rússia que recebem sua mesada diretamente da KGB, escolher um lado para torcer e transferir para ele todos as virtudes e todos os vícios para o lado oposto num maniqueísmo burro que não leva em conta a guerra assimétrica de informação que os dois blocos estão travando já há um bom tempo com acusações de ambos os lados de ataques cibernéticos e propagação de fake News e fomento de movimentos identitários e bandeiras ideológicas que visam enfraquecer a opinião pública já bastante dividida que seriam parte do que seria a chamada Guerra Híbrida; 

O mundo de hoje não é muito diferente do que era antes da queda da Cortina de Ferro, pois a Rússia nunca deixou de ser a mãe Rússia, terra dos messianismo eslavo, dos czares e dos soviets e a China só aderiu ao capitalismo na parte comercial; 

Na parte geopolítica esses países ainda representam um bloco e uma fatia bastante representativa que não deseja se ligar ao Ocidente e comprar os ideais de “democracia liberal” vendida pela ONU e seus comparsas no seu plano globalista; Em suma, há dois grandes projetos globalistas colocados em andamento que disputam a primazia no palco geopolítico mundial; O projeto pan-islâmico também é um projeto global, mas, por hora, mantém-se atrelado ao bloco eurasianista e comunga com ele do propósito de enfraquecer e destruir o Ocidente; 

O que chama a atenção, porém, no projeto colocado em prática por Putin e inspirado por Dugin é a retórica embutida em sua super ideologia que tem a pretensão de acabar com as diferenças históricas entre nacionalistas empedernidos e comunistas saudosistas do levante do proletariado; 

Não à toa, o movimento foi chamado até recentemente de nacional bolchevismo; Dugin é hábil com as palavras e identifico em seu discurso a capacidade de encantar o público com ideias gatilho e apelo emocional para que todos aqueles que estão descontentes com as políticas adotadas pelos globalistas para implantar a NOM sejam de direita ou esquerda, escolham ficar ao lado do movimento eurasianista revolucionário que promete ser uma resistência contra a destruição dos valores culturais dos povos frente a desintegração proposta pelo pós-modernismo globalista; 

Isso está soando muito bem aos ouvidos de muitos “conservadores” de direita que agora identificam Putin como antiglobalista e defensor das tradições e soberania dos povos ao mesmo tempo em que faz declarações elogiosas ao poder do estado russo na época de Stalin e setores da esquerda, nomeadamente partidos políticos e países governados pela esquerda, identificam que a Rússia ainda é uma campeã no combate ao “imperialismo americano” da OTAN e da ONU e continua fornecendo seu apoio político, econômico e até militar abertamente a governos que se declaram contra os valores americanos e a democracia dita “liberal” como Síria, Irã, Venezuela, etc; 

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-60383194

Essa defesa de Putin tanto por direitistas quanto por esquerdistas é uma flagrante contradição e mesmo um paradoxo, não é mesmo? Não se tivermos em mente que esse é exatamente o resultado esperado da estratégia duginista baseada num trabalho intenso das agências de propaganda pró-Rússia para desinformar e vender Putin exatamente da forma que Aleksandr Dugin quer de acordo com os princípios de sua doutrina enquanto firma acordos com países como a Venezuela, identificada como potencial colaboradora na região, para aumentar sua influência geopolítica através de grupos como o Grupo Puebla, um upgrade do carcomido Foro de SP para ações mais diretas no formato de resistência revolucionária; 

https://www.defesanet.com.br/ghbr/noticia/34608/Grupo-de-Puebla--Nova-estrutura-substitui-o-Foro-de-Sao-Paulo-para-a-retomada-do-Poder/

O raio x feito há muito tempo por Dugin do “conservadorismo” mundial e brasileiro parece acurado e está surtindo efeito, pois verifica-se que muitos setores do conservadorismo de direita estão cansados do uso instrumental feito sobre palavras como “democracia” e “instituições democráticas” por pessoas que as usam somente como pretexto para sua agenda oculta; 

O resultado é que muitos dos que se dizem conservadores direitistas desacreditam dos ideais democráticos e já estão dispostos a abrir mão deles se tivessem a oportunidade de ter um homem forte como Putin no poder ou como disse o comentarista político Paulo Figueiredo  (Twitter: @realpfigueiredo) recentemente “O brasileiro médio não quer democracia. Ele quer um ditador com quem ele concorde”;  

Muitos podem objetar dizendo que uma política nacionalista e conservadora de direita, como a dos militares brasileiros,  é muito diferente de uma política de esquerda socialista e que isso é apenas uma viagem doida sem sentido, que os dois são como água e vinho, mas apenas pare de pensar um pouco e comece a raciocinar de verdade com o cérebro: 

A História e os fatos reais por trás dos eventos nos mostram que a esquerda socialista ocidental só adquiriu essas pautas identitárias e abraçou o feminismo, os direitos humanos e dos negros e a causa gay por causa do marxismo cultural proposto como saída para implantar a revolução socialista veladamente no Ocidente uma vez que a revolução do proletariado não viria; 


É sabido que os pensadores marxistas fomentaram essas ideologias para dividir e enfraquecer o tecido social nas sociedades ocidentais e preparar o caminho para a “revolução social” e políticas cada vez mais centralizadas; Porém, quando olhamos as sociedades explicitamente socialistas não há traço algum dessas pautas sendo implementadas, muito pelo contrário, a sociedade chinesa é profundamente tradicional em seu formato e o PC chinês não admite mulheres nos altos cargos e muito menos incentiva políticas identitárias nas suas escolas;

https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/cuba-cancela-marcha-lgbt-em-havana-e-da-aviso-a-quem-ousar-contrariar/

Assim também na Coreia do Norte, em Cuba (onde a passeata do orgulho gay foi proibida) e também na sociedade russa, extremamente conservadora e machista. Desse modo, podemos afirmar que tanto regimes calcados no nacionalismo exacerbado quanto aqueles que propõem o socialismo de estado, e não o cultural como vemos nos partidos de esquerda daqui, adotam em essência os mesmos valores de ordem e controle social rígidos porque tudo se resume, nessa condição, a um único item: o Estado. E aí, a lógica empregada não é mais a luta de classes e, sim, a lógica fascista ditada por Mussolini que resume tanto o nazifascismo quanto o comunismo: Tudo pelo Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado. 

Poderíamos dizer também que dentro de todo verdadeiro socialista que sabe disso, que o fim da revolução cultura serve para estabelecer um estado totalitário, vive na verdade um reacionário moralista exatamente como o saudosista do regime militar que deseja acima de tudo calar quem não concorda com ele e detesta a bagunça que se instalou na esquina com os "bondes", o bailes funk e as drogas, coisa impensável de acontecer, por exemplo, nas ruas de um cidade chinesa ou russa.

Desse modo, podemos ver que as políticas encampadas pelos grupos de esquerda no Ocidente são apenas modos adotados para cooptar indivíduos para suas fileiras e dividir a sociedade com êxito; Tanto a China quanto a Rússia e seus aliados muçulmanos, enfim, o bloco eurasianista como um todo, sabem usar muito bem esse mecanismo colocado em prática há muito tempo no Ocidente, pois sabem que isso gera fraqueza (a chamada emasculação do Ocidente) a longo prazo na tomada de decisões estratégicas e de compromissos aos quais eles mesmos não tem obrigação alguma por representarem sociedades fechadas (lembre-se do que Dugin disse a respeito das sociedades “abertas) e tradicionalistas. 

Em resumo, o bloco eurasiano continua a estimular essas práticas no Ocidente apoiando causas esquerdistas e anti imperialistas para enfraquece-lo por dentro, enquanto dentro de seus territórios eles primam pela ordem social e controle das massas, não por moralidade, por amar as tradições ou ideais, mas porque sociedades onde não existem movimentos de massa ou tensões sociais são mais fáceis de controlar. 

Contudo, a guerra é assimétrica em todos as áreas e visa realmente confundir e aturdir aquele que simplesmente deseja ver onde está o inimigo, mas o inimigo está do lado de lá e também está do lado de cá visto que as elites globalistas ocidentais trabalham exatamente da mesma maneira porque seu compromisso é firmar um bloco tão coeso quanto o bloco eurasiano e só vai conseguir isso quando a ideia de um único Meta Estado com um governo central e centralizador se materializar e substituir os estados das nações; 

Os países passariam a ser estados dessa única nação ocidental que encarnaria os ideais “liberais” propostos pela ONU e pela OTAN; Como conseguiriam isso? Exatamente através do marxismo cultural e da centralização estatista de decisões políticas, econômicas e sanitárias, coisa que todos estamos vendo bem diante dos nossos olhos atualmente todos os dias com a instrumentalização dos órgãos de propaganda (mídia digital e televisiva). 

Em suma, o propósito é o mesmo do bloco eurasianista, apenas os métodos se diferenciam: centralizar o poder, o que significa aumentar o poder do estado sobre o indivíduo, implementando o coletivismo e diminuindo as liberdades; Algumas pessoas ainda duvidam que capitalistas donos de bancos e indústrias possam ter iniciativas que apoiam o socialismo porque ingenuamente acreditam que o socialismo acaba com a desigualdade social e com as injustiças sociais, mas isso é ignorar que o socialismo historicamente não acabou com a desigualdade, apenas criou duas castas sociais: os favorecidos pelo regime e os desfavorecidos; Isso porque o socialismo gera, na verdade, um aumento ainda maior da concentração dos recursos e capitais nas mãos daqueles que estão no poder; 

Portanto, foi verificado que esse tipo de socialismo proposto no Ocidente é preferido entre os metacapitalistas, ou seja os bilionários donos de bancos e empresas, que não desejam a implantação de um regime comunista, mas um aumento geral de poder estatal centralizador, dos quais são os principais parceiros e financiadores, o que garantiria a eles maior concentração de recursos e meios para que seus empreendimentos sejam mantidos a longo prazo. 

Qualquer dúvida sobre o caso, recomendo ler o livro “Política, Ideologias e Conspirações” que mostra o quanto os EUA foram parasitados por dentro desde antes de 1900 por um grupo de banqueiros e investidores internacionais que também lucraram como regime soviético, financiando a construção de sua burocracia e lucrando ao vender armamento e tecnologia para os dois lados durante a Guerra Fria. As famílias desses magnatas e nobres europeus são dinastias construídas há séculos cujos descendentes ainda estão no poder e atuando no palco mundial por trás das iniciativas de grupos bem conhecidos de quem pesquisa a NOM. 


Então, os dois projetos de poder globalista são calcados no socialismo e na supressão da verdadeira democracia e das garantias individuais e, por isso, tem pontos de contato, interesse mútuo e até cooperação em certos níveis, mas há tensões que envolvem interesses geopolíticos e como nenhum deles ainda chegou ao controle total de fato (e talvez isso seja impossível e inviável) cada movimento no tabuleiro mundial geopolítico é importante para determinar uma vantagem estratégica que pode ser definitiva mais tarde. 

Assim, o conflito entre Rússia e Ucrânia se reveste de grande interesse para o cenário. A pobre Ucrânia, um país historicamente acossado por todos os lados, invadido, ocupado e quase extinto várias vezes, e que sempre lutou por sua identidade, se encontra numa encruzilhada e foi feito de peão no jogo de interesse dos dois blocos.   

Para finalizar, voltando a falar da filosofia embutida na Quarta Teoria Política de Dugin, eu vejo nela uma retórica messiânica perigosa que, se levada adiante, pode se tornar algo como o nazifascismo. 

Ela possui os símbolos, a retórica e os métodos que seduzem e inspiram incautos a aderir a uma mentalidade revolucionária (que por si só é contrária ao conservadorismo) de “destruição criativa” da mesma forma que Hitler seduziu conservadores a aderir seu projeto para salvar a Alemanha e o mundo da praga do imperialismo sionista, culpando a todos pelo infortúnio de seu país, forjando uma imagem de culto aos valores e tradições e respeito às religiões.  Todos os sinais estão ali e ignora-los seria ignorar o poder que certas ideias tem para retornar ao cenário com a mesma fala, mas travestida de outra coisa. 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Compara%C3%A7%C3%A3o_entre_nazismo_e_stalinismo

Ao mesmo tempo, Hitler até admitiu admirar Stalin e seu modo de conduzir o governo soviético purgando-o de elementos judaicos como Trotsky. As semelhanças entre o nacional socialismo e o comunismo bolchevique podem ser rasteadas para além do antisemitismo e do genocídio de compatriotas em gulags ou campos de concentração e o denominador comum pode ser obtido através de uma fórmula simples: estatismo + ódio ao liberalismo + antisemitismo + militarismo. 

O que vamos obter dessa soma pode ser o preço que devemos pagar para resgatar novamente o sentido estrito de palavras que perderam seu real sentido como Democracia, Ocidente e Liberdade.

Dois dias antes do início da invasão a Ucrânia, Dugin publicou um novo artigo no site geopolitica.ru/pt-br intitulado "Vida Longa a Nova Russia! A grande reconquista eslava começa!" onde ele relata o quanto sofreu pela interrrupção da guerra iniciada em 2014 com a ocupação da Crimea: "Não consegui entender nosso governo, porque ele deteve o que não deveria ser parado, e não fez o que obviamente deveria ter feito" e  declara ainda que "A batalha pela Ucrânia... é uma condição para o renascimento de nosso império". Dugin ainda chama a invasão de "operação punitiva" e que "Passamos agora o ponto de retorno. Não é mais possível voltar atrás. É tarde demais" 

https://www.geopolitica.ru/pt-br/article/vida-longa-novorrussia-grande-reconquista-eslava-comeca