Nos tempos bíblicos, os profetas de Israel, denunciaram sistematicamente a apostasia dos israelitas e sua insistência em voltar ao politeísmo da vizinhança e às práticas nomeadas como idolatria. Os profetas nomeavam como “prostituição” esses atos que geralmente ocorriam nos chamados “lugares altos”, antigos santuários localizados nas partes mais altas da cidade antes usados na religião Cananeia. O veto dos profetas tinha o sentido de alertar para que a nação de Israel não perdesse sua identidade cultural e fosse assimilada pelas nações ao redor voltando, assim, a cultuar os deuses antropomórficos vigentes, uma regressão cultural.

Talvez hoje essas ideias não devessem nos parecer tão estranhas e anacrônicas se de fato nos permitirmos olhar para elas sob outro prisma, porque, como nos lembra Luiz Felipe Pondé sobre o pecado: “é uma espécie de compulsão da qual você não escapa e que determina, de certa forma, uma espécie de mapa do comportamento humano”. 

Não é necessário ser religioso para enxergar o quanto é importante para o ser humano manter uma noção de pecado no seu viver para justamente não incorrer no desenfreamento das paixões e sentidos que povoam nossa alma e que destroem tantos em nossos dias.Nesse sentido, a fala dos profetas guarda essa noção de que os israelitas estavam diminuindo o sentido de suas vidas, trocando algo verdadeiro e infinito por algo ínfimo e vão, fazendo uma opção claramente menor da vida e de si mesmos.

Estaríamos nós também em nossos dias diminuindo o sentido do nosso viver e, assim, praticando idolatria, nos curvando sem resistência ao deus tecnológico que dita os rumos de nosso viver nas “nuvens”? Mais: há alguma forma de escapar do seu controle e, assim, não perder nossa essência, nossa identidade? Está a tecnologia nos tornando mais humanos de fato?

Seus altares e colunas estão já entre nós há muito tempo. Elas fazem parte da vista de qualquer cidade hoje em dia e sequer são mais notadas como parte da paisagem. Estão lá, onipresentes, nos lugares mais altos das cidades, assim como os minaretes das mesquitas apontando para o infinito.Os minaretes do Islã nos lembram da submissão devida a Deus e sua onipresença e a que nos remete as antenas de transmissão de dados cada vez mais potentes das empresas e corporações que carregam nossas vidas nos céus de um ponto a outro do planeta? Não seria também submissão, inconteste e completa perante o deus tecnológico?


"E tomaste dos teus vestidos, e fizeste lugares altos pintados de diversas cores, e te prostituíste sobre eles" - Ezequiel 16:16


Até que ponto estamos longe daquilo que se preconizou em obras como 1984 de George Orwell ou do Pan-Óptico idealizado inicialmente por Jeremy Bentham em 1785 como o sistema de vigilância perfeita para uma penitenciária, conceito esse apropriado por Foucault em "Vigiar e Punir" para denunciar o processo sistemático cada vez mais elaborado visando vigilância e controle social.Um termo cunhado e muito utilizado por este pensador francês era a "docilização dos corpos", usado para descrever o método utilizado tanto em escolas quanto fábricas e hospitais para que as pessoas se conformassem com o sistema de modo inconsciente submetendo o ser humano ao controle social ditado pelas esferas dominantes do poder. Seus corpos e suas vontades estariam, assim, aptos e submissos a um condicionamento imperceptível e a uma vigilância onipresente e imiscuída nas diversas estruturas de poder.Também Gilles Deleuze fez uso do termo Pan-Óptico para descrever, baseado em Foucault, o que chamou de "instalação progressiva e dispersa de um sistema de dominação". As novas tecnologias, principalmente as de informação, baseada em dados de rede, não estariam promovendo hoje o que poderíamos chamar de "docilização das mentes", ou seja, tornando as mentes dependentes dessas tecnologias e subtraindo delas a capacidade de gerar pensamento crítico? Com já foi dito, "A pior prisão é a da mente".A empresa multinacional chinesa Huawei está nos centro dessa discussão mundial e vem sendo alvo de desconfiança de governos tanto da América do Norte quanto da Europa, sendo acusada de usar sua tecnologia de ponta na implantação da nova plataforma 5G no mundo todo. Segundo o governo americano, a empresa, que seria a maior fornecedora de patentes do 5G e maior produtora das potentes antenas requeridas para seu uso, a tecnologia seria usada para alta espionagem a favor da agenda do partido comunista chinês.As alegações americanas estão longe de ser de uma natureza pura, mas fazem parte da guerra mercadológica travada pelos dois países no terreno comercial, mas que tem raízes mais profundas no campo político/ideológico. Comércio gera riqueza e influência que se traduz por sua vez em poder e hegemonia.


A questão levantada é interessante porque suscita a questão do quanto os governos estão empenhados em controle social, não importando se pretensamente estão compromissados em sua retórica com as liberdades individuais garantidas naqueles papéis que nós, civilizadamente, acostumamos chamar de Constituição. O jogo jogado na chamada deep web, que hoje se sabe ser a maior parte da rede, encoberta, oculta, invisível e inacessível ao usuário médio, habitada por seres quase míticos como hackers, terroristas e agentes de contrainformação, é bem outro. Não se pode mais ignorar isso enquanto nossas vidas seguem seu curso normal na superfície.Nesse processo irreversível de  "instalação progressiva e dispersa de um sistema de dominação", não estaria incluído um tipo de prisão muito mais sutil do que aquela descrita tão habilmente por Foucault em meados do século passado da qual ele mal poderia suspeitar pelo nível tecnológico no qual viveu?Docilizadas, enfim, nossas mentes, qual será o próximo passo visto que já somos alvos diários de algoritmos implacáveis que escaneam  nossas vidas como que para cunhar tentações na forma exata dos nossos desejos colocando-os diante de nossos olhos exatamente como um pescador faz ao colocar a isca no anzol balançando-o diante de um peixe faminto.

Somos facilmente fisgados por nossos olhos vorazes e acedemos gentilmente essa invasão tranquilizando nosso íntimo com a mensagem de que tudo está bem e que, afinal, há pessoas zelando para que tudo corra normalmente e o prêmio do conforto é estar livre de preocupações, amortecidos e inoculados com essa crença .

Não é mesmo da natureza humana o sentir-se mais confortável e protegido exatamente quando estamos mais vulneráveis, todas as noites, quando nossos corpos cansados entregam-se aos cuidados dos braços oníricos de Morfeu?