Capítulo I - Onde a Realidade Concreta é Literalmente Virtual- Ultrapolarização no país onde não se discute religião nem política – A tecnologia nos fez melhores? – Real ou artificial? – Razão e pensar: Um jogo de palavras – Legitimando o ilegítimo – Sociedade sem mitos: celebridades como referência – Ponto de cisão – A intuição de Ortega y Gasset - Algoritmos: Essas entidades fantásticas – Diálogo com as máquinas – Uma mudança de padrão – Quando os criadores questionam a criação – Desligando o botão de “curtir” – O mundo editado – Uma realidade virtual na realidade concreta – Os dias do ‘deus’ algoritimo


 O adágio popular antigo de que "política e religião não se discute" caiu em desuso como muita da antiga sabedoria vinda da experiência diária, fruto do senso comum da gente tida como comum. Como muitas tradições arraigadas, ele começou a parecer uma cláusula impeditiva para discussões mais profundas sobre dois temas que são centrais na vida humana em sociedade. 

De fato, só houve sociedade humana propriamente dita a partir da religião e da prática política de organização de tarefas. Não há como fugir disso, mas discutir o assunto, tornou-se para o brasileiro médio algo meio que tabu.De uma hora para outra, porém, vemos essa lógica se inverter no momento de ultrapolarização do país e nos vemos obrigados, seja no convívio real ou nas redes, a nos posicionar e emitir opiniões que, invariavelmente, colocam as pessoas em lados opostos. O que se viu, na prática, foi que muitos churrascos familiares e comemorações de fim de ano não acabaram de forma amigável, com parentes se dividindo dentro da própria casa (há até mesmo caso de filhos anatematizando pais e vice-versa) e, nas redes sociais, amigos excluindo-se e bloqueando-se mutuamente. 

É quase impossível hoje emitir uma opinião sem que você, tendo a intenção ou não disso, seja classificado, rotulado e marcado como gado de um ou outro curral. Escolha seu lado nessa guerra maniqueísta.Ficar em cima do muro é algo fora de questão. “Ou está comigo, ou contra”. Eu gostaria que você só pensasse por um momento nisso: Você realmente acha que isso é espontâneo? Ou seja, que é inevitável e que isso se reproduz no mundo todo, em sociedades e culturas tão díspares quanto a nossa, brasileira e permissiva a quase tudo, e também na India, na Turquia ou na Malasia de modo aleatório? O que você acha disso, Alice? Desse modo globalizado de ver e encarar tudo na vida? Isso é algo real? Passível de ser observado na natureza? Você acha que é inevitável  ‘o ser assim ‘  hoje em dia, com a comunicação de massa atingindo todos na velocidade da rede mundial, algo como o destino inexorável da humanidade?

Eu deixo outra pergunta que vai parecer um desvio de rota, mas não é em absoluto. Você acha que o progresso técnico da humanidade implicou num progresso racional da mesma? Em outras palavras, todo esse progresso a que temos acesso, fez do ser humano usuário da tecnologia, um ser integralmente mais humano num aspecto geral? Eu poderia reformular a questão da seguinte forma: 

Se um habitante do tempo que se chama HOJE encontrasse um habitante de alguma época anterior, digamos, do séc. X, ou mesmo do séc. XIX, tirando a tecnologia de cada época, o que veríamos efetivamente de diferente entre eles além das vestimentas e modo de falar, supondo que falam a mesma língua? 

Não há margem para dizer outra coisa senão que não seria encontrado nada substancialmente diferente em termos gerais, pois o homem de hoje se fez dignitário de toda técnica acumulada pelos avanços da Ciência, mas não a possui em si mesmo ou por si mesmo.Se a civilização sofresse um colapso que a fizesse regredir, não creio que a maioria de nós teria conhecimento técnico sequer para construir um moinho de vento. 

Então, a resposta é: Não, nossa civilização técnico-científica não nos fez seres humanos melhores ou mais preparados. Talvez, e só talvez, mais informados em alguns aspectos (ou, talvez, mal informados) e isso não inclui o que você pode saber sobre as particularidades de alguma série de TV ou sobre a vida de algum participante de algum reality. 

Alguns estudos apontam para uma certa melhora na cognição geral para fazer associações mais elaboradas entre símbolos, mas muito provavelmente isso trata-se de uma adaptação imediata à necessidades do meio em que vivemos hoje e ao uso de ferramentas mais especializadas. Em resumo, nada melhores do que os seres humanos de outras épocas. 

Em muitos quesitos, talvez possamos provar até o contrário, que somos, em boa parte, mais obtusos. Todo o progresso técnico-científico e social que tivemos (não há dúvidas que viver hoje, no Ocidente pelo menos, possui mais garantias e direitos do que há dois séculos) não nos tornaram mais inteligentes e, certamente, também não nos fez mais humanizados. Peço que não cometa o erro de achar que escolarização ou alfabetização básicas são dados relevantes para o aumento da inteligência geral do ser humano como espécie.

Isso nos leva de volta àquela pergunta feita um pouco atrás: A hiperpolarização mundial que vivemos é algo real, algo que exista de modo natural e inegável se a presente civilização não tivesse um estilo de vida baseado e dependente de uma conexão extrema com aparelhos eletrônicos ou passasse a maior parte do dia verificando as atualizações de suas notificações, feeds e storys? Isto é, há alguma conexão disso tudo com a realidade como ela é ou estamos criando uma realidade por nosso estilo de vida?

Ainda não é a resposta, mas estamos nos aproximando dela.Só há dois modos de ver essa situação:

1- A situação em si é real e intrínseca ao mundo que vivemos hoje, sendo inescapável como fenômeno verificável socialmente e algo com o qual estamos ainda aprendendo a lidar;

2 - Ela é totalmente artificial e não tem base na realidade, sendo um produto esperado e até desejado por alguns setores, cujos efeitos, o vício em pensar obrigatoriamente numa via binária, previsível e mapeada passo a passo, poderia ser anulada se suas fontes fossem detectadas.

Essas são suas duas opções, Alice...Real ou Artificial?

Digamos que você pudesse por alguns dias ausentar-se da sua vida atual e permanecer incomunicável (uma palavra que equivale hoje ao que significava banimento em algumas sociedades primitivas) durante esse tempo. Quais seriam suas prioridades? 

Será que poderíamos constatar em meio à natureza, observando o fluir dos rios, o vento soprando na copa das árvores, no caminho das estrelas num céu descoberto e sem Lua, algum resquício das nossas infames preocupações? 

Como o Universo ousa seguir seu monótono ritmo ignorando solenemente nossas questões, que parecem a nós questões pelas quais estamos dispostos a matar ou morrer, mas para a grandeza do mundo em que vivemos não passam de questiúnculas?

Não importa o quanto você vive imerso nessa teia que a civilização teceu para todos nós. Se você não partir desse insight, de que todas essas questões colocadas diante de você são artificiais e que nada tem a ver com sua essência, sua existência real como indivíduo, de nada vai adiantar ler todo o resto.

Tudo que foi colocado diante de você como uma questão verdadeira, como algo do qual vale a pena brigar com um irmão, amigo ou parente e bloqueá-lo em sua rede social, são questões que afastam você do verdadeiro questionamento. Identificar isso e anular seus efeitos é a tarefa que tentamos mostrar nessa jornada pela toca do coelho... E essa toca é o seu próprio cérebro.

Será que o seu modo de pensar em tudo aquilo que você tem pensado nos últimos anos, é realmente produto de reflexão? Faça essa pergunta de modo sincero a si mesmo. Será que você tem usado realmente sua razão em algum ponto disso ou será que você não foi manipulado em algum nível bem sútil da sua consciência (horror dos horrores!)?

Frequentemente, confundimos razão com pensar. Ora, logicamente, razão é usar o pensar, mas nem sempre o pensar é racional ou produto da razão.“Espere aí! Isso é só um jogo de palavras!”Não, não é.Veja o que o famoso escritor e professor de Mitologia e Religião Comparada, Joseph Campbell, autor do best seller “O Herói de Mil Faces” disse a respeito:

“Calcular o que é preciso para atravessar uma parede não é razão. O rato que, depois de por seu focinho aqui, calcula que talvez deva circular por ali, está calculando alguma coisa do mesmo modo como nós calculamos. Mas isso não é razão. Razão tem a ver com encontrar as bases do ser e as estruturas fundamentais do universo”[1].

A razão verdadeira dista do pensar como um poeta está distante de uma criança aprendendo a juntar as primeiras palavras.“Sapere Aude” foi o mote de Kant no raiar do Iluminismo, quando os homens do saber proclamaram que a razão triunfaria sobre as trevas da ignorância. Isso quer dizer ‘Ouse usar o seu próprio intelecto, sua inteligência para discernir a realidade’, não se contente com a descrição dos outros, você mesmo é capaz de examinar as coisas e chegar a uma conclusão própria, isto é claro, se treinar o suficiente os caminhos do pensamento.

Em geral, as pessoas acham o suficiente ter uma opinião baseada em algum tipo de “crença” que a fundamente sem procurar ir até o fim daquela opinião ou pensamento para observar seus frutos.Alguém disse certa vez: “Pela árvore se conhece os frutos”. A árvore é o pensamento e os frutos as ações originadas dele. 

Todo pensamento tende a tornar-se uma palavra e toda palavra tem o potencial em si de gerar uma ação completa. Essa ação é o fruto gerado por aquela árvore. Se tivermos esse conhecimento, podemos descartar certos tipos de pensamento porque saberemos que geram frutos ruins. Acontece que hoje em dia as pessoas não tem tempo para estudar as “árvores” e não aprendem mais a distingui-las uma das outras. Como tudo na vida, isso requer uma certa disciplina e treinamento o qual não se encontra facilmente hoje pelos rumos que a educação tomou no mundo ocidental no último século.Vivemos um tempo onde a TV e a Internet “educam” muito mais do que o sistema de ensino. 

Como podemos usar esse tipo de esclarecimento se por todos os lados o ser humano afunda cada vez mais no charco da mediocridade, engolindo aquilo que lhe é empurrado goela abaixo pelas TVs como estilo de vida?Como se abrir para um outro tipo de entendimento se a ideia do rebaixamento da condição humana é afirmada e autenticada continuamente, legitimando a obliteração da razão numa geração  exposta unicamente às redes sociais e a conceitos oriundos da glamourização de subculturas? 

Subculturas essas que foram elevadas a modos de expressão legítima de grupos e nichos identitários que promovem comportamentos niilistas. As coisas são o que são. Um sociólogo pode elaborar uma tese na qual detalha a importância do “movimento cultural” em torno do estilo de som produzido no movimento funk e dizer que isso é um processo benéfico que legitima as classes sociais desfavorecidas, que isso dá voz a elas, ao que essa geração tem a dizer. Soa bem isso. 

Mas uma análise daquilo que os artistas têm a dizer, do comportamento dos músicos e adeptos e de todo o entorno do “movimento” mostra que se é isso que essa geração tem a dizer, realmente deveríamos parar tudo que estamos fazendo e dar uma guinada de 360 graus. 

É medonho constatar os “valores” pregados, aceitos como válidos pela mídia e espalhados em massa como se isso não causasse todo um efeito deletério numa geração já zumbificada pela falta de propósito.

Estamos legitimando o ilegítimo e, o pior: propositalmente.Logicamente, isso soa perfeitamente preconceituoso e reacionário aos ouvidos de muitos defensores de “causas sociais” nobres hoje em dia (o uso dessa palavra tornou-se algo como uma fórmula mágica para distinguir quem é quem na atual sociedade – já não basta dizer que tem uma causa, é preciso vir chancelado com o selo “social”), mas o diagnóstico da doença nem sempre agrada o doente, principalmente naquelas doenças que exigem mudança de comportamento por parte da pessoa que seria mais interessada. Hoje em dia, soa quase como pecado um médico dizer que uma pessoa precisa emagrecer se quiser ser saudável.

Estamos apontando a doença e se quisermos salvar o doente não podemos sofrer do mesmo mal, pois trata-se de um caso grave de astigmatismo social coletivo. Os efeitos sentidos em toda uma geração, “uma sociedade desmitologizada” como disse J.Campbell é que sentido pelo fato de que as referências que as pessoas buscam para suas vidas condiz com seu próprio estilo e visão de vida. 

Hoje, na falta de pessoas que nos ensinem a ver a vida por uma perspectiva mais ampla, as referências da juventude centram-se naquilo que seus olhos podem enxergar imediatamente, ou seja, celebridades.As celebridades, até pouco tempo atrás, eram seres supra-humanos que habitavam os programas de TV. 

A era digital ‘democratizou’ a banalidade e gerou uma nova classe de celebridades que creem ter talento, mas nunca foram contratados por uma emissora de TV. Hoje, as novas celebridades são YouTubers que arrebanham milhões de seguidores em diversos segmentos como games, moda, fofoca, entretenimento, etc. Enfim, descobriu-se um novo filão onde qualquer um com um câmera pode tornar-se famoso e “viralizar” da noite para o dia. Ainda faltam estudos sociológicos nessa área, mas o impacto do You Tube na cultura mundial talvez seja maior do que qualquer outra rede social e talvez deva ser comparado com o advento da TV.

A hiperpolarização do mundo ocidental ganhou a cena por volta de 2013/15 e seus efeitos potencializaram algo que estava latente no povo: o desejo de se expressar, de dar opinião sobre tudo. A democratização da opinião gerou essa nova classe de celebridades, os digital influencers, pessoas comuns como eu ou você, não especialistas, mas que descobriram o talento de juntar “seguidores” falando sobre assuntos dos mais diversos, atingindo uma vasta gama de gostos e tendências.

Esses digital influencers até por volta dessa época mantinham-se em seus quadrados restritos ao seu público e seus assuntos preferidos até que... Algo aconteceu. Uma linha invisível foi cruzada e, estimulados ou não pelas TVs, que abertamente escolheram seus lados no espectro político, essas pessoas bastante influentes junto aos seus respectivos públicos começaram a emitir opiniões de cunho político. Logicamente, a opinião de uma celebridade sobre um assunto no qual não tem domínio não deveria exercer uma influência capital sobre a opinião de outrem, mas as pessoas hoje em dia tem a tendência a achar que uma pessoa por ser muito popular e falar algo em público com desenvoltura garante que sua opinião tem fundamento. 

É o poder do ethos pessoal na retórica, ou seja, o quanto uma pessoa tem credibilidade para convencer outra usando a influência do nome ou da imagem.  A politização das massas, num efeito cascata aqui no Brasil, no bojo de situações atípicas (nem tanto em se tratando de Brasil, infelizmente) como denúncias de corrupção, Lava Jato, Petrolão, processo de impeachment da presidente Dilma (não existe flexão de gênero nessa palavra, desistam) trouxe consigo a polarização extremada e o acirramento das diferenças entre esquerda e direita (na verdade, não tão diferentes assim como veremos).Mas isso não acontece só aqui em nosso país. 

O mundo viveu esse momento da mesma maneira, com o mesmo padrão globalizado em eventos que dividiram a opinião pública em polos bem distintos e identificáveis. Trump na América, exilados na Europa, Brexit na Inglaterra, etc. Houve um ponto de cisão aonde vimos emergir a tônica do estado que temos hoje no mundo em plena pandemia, onde nem mesmo a Ciência saiu incólume. Não há como fugir dessa tônica. 

O mundo civilizado existe hoje quase como uma única entidade onde a menor parte repercute instantaneamente no todo. Ortega y Gasset já sentia esse fenômeno em seus dias, no início do séc.XX, quando escreveu seu clássico, A Rebelião das Massas (Tenha em mente que ele escreveu essas palavras por volta de 1930):

Nesses últimos anos, cada povo recebe... a cada hora e a cada minuto, tamanha quantidade de notícias tão recentes sobre  o que acontece nos outros, que provoca a ilusão de estar de fato nos outros povos ou imediatamente ao lado. Dito de outra forma: para os efeitos da vida pública universal, o tamanho do mundo subitamente se contraiu, se reduziu. Os povos de repente se viram dinamicamente próximos.” [2]

O que diria hoje o perspicaz espanhol ao contemplar nossa sociedade de mensagens instantâneas e fluxo hemorrágico de informações (e opiniões) despejados ininterruptamente pelos portais de notícia a pretexto de manter o cidadão “bem informado”? 

Segundo ele, já em seu tempo, as noticias não possuíam mais o caráter meramente “contemplativo” de outrora, mas, por chegarem com “extrema rapidez, abundância e frequência”, adquiriam quase que um “caráter de intervenção”. “Sempre há”, continua ele, “intrigantes que, por motivos particulares, se ocupam deliberadamente em fustiga-la (a intervenção)”. 

Ou seja, para ele, já naquela época, as opiniões formadas pelas massas ou grupos de interesse através da informação contínua estavam levando uma pressão sobre as decisões tomadas por governos em relação a outros países, como uma goteira sobre a cabeça de alguém que está tentando dormir à noite deitado numa cama. Ortega intuiu que podemos estar mal informados sobre um fato mesmo estando saturados de informação sobre ele.

Assim, esses acontecimentos concomitantes citados logo acima, que concorreram para “acelerar” as opiniões e pressionar a bolha da opinião pública e produzir uma onda que repercutiu no mundo todo, coincidiu com uma mudança sutil nos padrões da web que passou despercebida na época. Isso nos leva a questão daquilo que governa sua experiência hoje em dia na web. 

Algoritmos.O que são? Onde vivem? Como se reproduzem?

Não pisque, Alice.

"Eles" estão bem diante dos seus olhos quando você se conecta no seu PC ou liga o celular. Eles são quase que um tipo de animal fantástico habitante de algum país mítico pela aura misteriosa sobre eles.

Quero dizer, você não pode vê-los e não sabe ao certo o que fazem, mas sabe que eles existem, estão por aí, fazendo o trabalho para o qual foram programados, mesmo que você não saiba exatamente qual é esse trabalho.

Estranhas essas atribuições que se parecem mais próprias a um ser metafísico como um anjo ou demônio, mas, diferente desses, você não pode negar que algoritmos existem como uma verdade matemática que possibilitou um aprofundamento na experiência pessoal ao navegar na rede, fazendo do Facebook e do Google absolutamente tudo que são hoje.

Você não pode pensar na revolução digital sem pensar no motor de busca que tornou o Google para nós o que era o Oráculo de Delfos para os gregos na época de Sócrates, por exemplo. Ou o que seria do Facebook sem seu poder quase onisciente para encontrar seus amigos da segunda série que já estão até com Alzheimer.

Você não sabe exatamente o que é um algoritmo, mas é íntimo dele, e ele fornece para você diariamente aquilo que você deseja saber, como se conhecesse seus desejos mais profundos, o que você ama, colocando diante dos seus olhos aquilo que VOCÊ acha útil e afastando-o daquilo que odeia, das pessoas que odeia, das notícias que não deseja saber, blindando você de saber algo que não é conveniente por que não pertence ao seu grupo ideológico, seja político, religioso ou social.

Algoritmos são equações matemáticas complexas, uma sequência finita de regras que, aplicada numa certa base de dados, permite solucionar e prever algumas classes de problemas dentro de um programa que usa código binário. O código binário é o sistema de IA imperativo nos sistemas de computação em voga no mundo e baseia-se numa equação matemática redundante que usa os valores 1 e 0 como base.A atuação de um algoritmo permite um grande leque de probabilidades, mas inevitavelmente, os milhares de cálculos efetuados serão, fatalmente, reduzidos a um ou zero. 

Guarde isso em mente. Um ou zero.É impossível falar de algoritmos sem falar em linguagem de programação. 

A linguagem de programação é uma das últimas ciências surgidas e originou-se da necessidade de formular uma “interface amigável” para que a tecnologia da computação analógica, antes acessível apenas para programadores, estivesse à disposição do maior número de pessoas possíveis. 

Antes da Microsoft e da Apple isso era algo distante demais do público em geral ficando restrito aos grandes complexos tecnológicos como a IBM que construíam máquinas colossais para grandes empresas.Um software é nada mais do que um código de texto (código fonte) com uma sequência de instruções escritas com uma sintaxe lógico-matemática que fornecem instruções – cada palavra de ordem dentro dessa sequência é uma instrução – que será traduzida para a linguagem binária (código da máquina) pelo processador (aquele monte de zeros e um que você vê em muitas cenas de Matrix quando Neo “vê” a Matrix é o código da máquina, a “língua” que ela fala) que interpreta e transforma o código numa ação. 

Logicamente, nessas últimas décadas, houve muitos avanços na arquitetura dessa linguagem e o explanado acima é só uma pincelada para que possamos adentrar nesse terreno selvagem e desconhecido com passos de um hobbit prevenido e perspicaz.

O fato é que sem os softwares, a interface amigável que faz com que dialoguemos com as máquinas, teríamos que digitar diretamente os códigos binários nos sistemas e isso tornaria impossível a popularização dos computadores pessoais. Um computador é uma criação maravilhosa do homem. Pense apenas em todo o avanço do pensamento matemático abstrato e das pesquisas necessárias para tornar tudo aquilo viável tecnicamente, que tiveram lugar antes do homem criar efetivamente tal coisa: uma máquina que pode efetuar cálculos e operações numa velocidade fantástica e parece possuir poderes sobrenaturais como onipresença, onisciência e inteligência própria. 

Estamos no tempo do IA, a Inteligência Artificial, projetada e arquitetada por nós, mas que, estranhamente, parece destinada a nos suplantar se continuarmos alimentando seu poder com mais bits, com mais velocidade de raciocínio e alcance de atuação.

Não é estranho que possamos construir algo que pareça superior a nós mesmos? Isto é, não foram os seres humanos que programaram a “mente” dos computadores com todas as suas possibilidades? Isto não é fruto do espírito humano? Não teríamos nós também capacidades semelhantes?Estranha humildade essa que apresentamos. Construímos algo maior do que nós, com uma mente mais poderosa, fruto da nossa imaginação, a alimentamos com a tecnologia prévia que nós mesmos criamos e com os dados que nós temos sobre todas as coisas e dizemos para nós mesmos que não possuímos isso, essa capacidade quase ilimitada, dentro de nosso próprio aparato físico. 

O homem antigo achava que nós possuíamos essa capacidade, sim, e isso ainda é dito por alguns monges e iogues do mundo oriental e alguns místicos do Ocidente, mas isso é outra história que não cabe aqui por hora. A construção de algoritmos cada vez mais avançados e microprocessadores cada vez mais poderosos acelerou os debates acerca do IA (Inteligência Artificial). 

Logicamente, quando usamos a tecnologia nunca estamos cientes desse aspecto dela. Adoramos fazer uso dela, como fazemos de toda tecnologia disponível que tornou nosso viver mais confortável, mas a tecnologia, por detrás da interface “amigável” dos softwares, dos seus emojis, efeitos e filtros que deixam todos mais bonitos, traz dentro de si um passageiro oculto. Quando você acessa ou fala com alguém na internet ou interage de qualquer outra forma você está dialogando com mais alguém que não pode ver e esse alguém é a IA do sistema. E isso é algo um pouco perturbador, não acha?

Em 1949, o filósofo inglês Gilbert Ryle criou o argumento do “fantasma na máquina” como crítica a concepção do dualismo mente-corpo que surgiu pela adoção do modelo cartesiano de realidade pela Ciência. Mal poderia ele saber que no séc. XXI seu argumento que se referia ao ser humano poderia ser aplicado hoje às máquinas que nos circundam em todos os cantos, com as quais  temos que interagir rotineiramente.O “fantasma na máquina” existe e foi criado pelo homem. Os algoritmos são apenas seus arautos enviados para sondar e reunir informações sobre você e leva-las de volta para o cérebro por trás de toda operação, o IA nos grandes sistemas de dados. 

E não estou sendo paranoico e nenhuma pessoa “normalista” pode desmentir isso ou me acusar de estar sendo “conspiracionista”, um rótulo comum para qualquer que questione o chamado “novo normal” do mundo de hoje pós-pandemia.As denúncias recentes sobre a privacidade dos dados dos usuários na internet e como eles podem ser acessados pelas Big Techs já virou escândalo internacional em 2018 quando o NYT revelou que os dados pessoais dos usuários foram compartilhados sem autorização pelo Facebook com outras plataformas e seu proprietário, Mark Zuckerberg foi chamado no mesmo ano a dar depoimento no Congresso americano quanto ao vazamento de dados beneficiando a empresa de consultoria política Cambridge Analytica[3] .

Como já dissemos, houve uma mudança significativa na experiência da internet nos últimos anos e isso partiu exatamente do aumento do uso de smartphones como principal meio de navegação e pesquisa nos últimos anos.Em 2016, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que 95% das pessoas acessaram a internet usando smartphones. O segundo meio mais usado foi o PC com 64%. Isso dá mais de 100%, claro que você percebeu, mas é porque uma única pessoa pode acessar a internet por mais de um dispositivo.

A melhoria da rede 4G e dos sistemas usados nos aparelhos proporcionou uma experiência mais suavizada e fluida aos usuários (usuário - uma palavra usada para esse caso e que guarda em si uma confidência, quase uma confissão). Isso coincide com uma “mudança” no padrão dos algoritmos (leia-se IA) usados nas redes. E não sou eu quem está falando. 

O alerta parte de pessoas do Vale do Silício profundamente envolvidas na criação da Web e das chamadas Big Techs. Por que a “criação” da Web ainda está acontecendo. É uma “criação”contínua, em expansão, como se emulasse a expansão do universo.

Mas, antes que eu fique muito abstrato, Alice, vamos aos fatos: Penso que devemos começar a questionar seriamente algo quando vemos os próprios criadores ficarem com medo da criatura que ajudaram a criar. Talvez algo não tenha saído como planejado e que deva-se fazer um mea culpa exatamente como estamos vendo alguns dos garotões que ajudaram a criar a internet como a conhecemos estão fazendo.O documentário “O dilema das Redes” foi lançado em 2020 pela Netflix e nele você verá a participação de antigos executivos das chamadas Big Techs e gente que participou ativamente da construção da chamada web 2.0 dizerem abertamente:"Algo saiu errado".

Mas o que seria esse algo?Acontece que, como já dissemos, a web ainda é um processo em construção. As empresas ainda estão testando caminhos. No caminho estava uma questão básica no capitalismo: Como ganhar dinheiro com isso?

A resposta é TEMPO: o tempo que você gasta nas redes e fica exposto aos algoritmos que medem e quantificam você e o induzem a permanecer ali infinitamente.E para que isso seja efetivo, vale usar qualquer, efetivamente, recurso, mesmo que não seja exatamente ético. Estamos falando de competição em nível hard, engula o concorrente ou seja engolido. É a máxima usada em Wall Street levada ao mundo digital[4].

Descrito como uma janela para as distantes mesas de decisões de gigantes do Vale do Silício, filme narra estratégias controversas para manter usuários conectados e expostos a anunciantes: Recursos disponíveis na ciência da neurolínguistica: basicamente, manipulação psicológica descarada.

Acho muito interessante que as pessoas esperassem outro resultado quando sabemos que os “donos” da internet são garotões (ainda estão beirando a meia-idade, mas na época tinham menos de trinta anos) programadores e nerds loucos para viver do que amam: tecnologia. Para isso, deveriam aprender a tornar seu produto como um doce para criança. E assim fizeram.

Tristan Harris, um dos programadores que trabalhou intensamente no Gmail do Google, é um dos principais nomes que hoje denunciam a falta de ética no meio em que conviveu durante boa parte da sua vida. Quando o indivíduo chega à idade da razão, ou ele retrocede em alguns pontos ou se torna um canalha envilecido, como já apontou Ortega y Gasset. Nada pior.

Acho que deveríamos começar a pensar sobre o assunto todo, Alice, e desativar suas notificações quando vemos que o cara que criou o botão "curtir" do Facebook está fazendo exatamente isso.Justin Rosenstein, nascido em 1983, juntou-se ao Facebook em 2007 após trabalhar desde 2004/5 no Google. Em 2008 ele deixou o Facebbok após deixar sua marca na vida de milhões de pessoas no globo ao criar algo se tornaria um verdadeiro marcador, um termômetro da vida social das pessoas: o botão de like.

Hoje, Rosenstein presta consultoria a empresas para que desenvolvedores como ele criem programas que não tratem os “usuários” como meros zumbis sem cérebro[5].

Rosenstein percebeu em certo momento que as redes sociais roubavam o tempo da sua vida real com a família. Você começa a simplesmente rolar páginas e páginas de informação e, de repente, BUMMM! Lá se foram 30/40 minutos. Algo análogo ao que acontece a alguém que narra uma experiência de abdução, não é mesmo? O tempo, algo precioso para o ser humano, foi roubado e apagado da sua mente.

Rosenstein decidiu “desligar” as notificações do seu aparelho e ganhar de volta esse tempo ‘off-line’.Qual “usuário” das redes nunca sentiu isso? A ansiedade para que a notificação de algo novo apareça em sua tela e traga algo como uma “curtida” ou comentário? Mas isso, o tempo roubado, é apenas uma das faces do problema. 

Eli Pariser é autor do livro “O Filtro Invisível: O que a Internet está escondendo de você” (Em inglês, o titulo é simplesmente "The Filter Bubble”)  e eu não conhecia seu trabalho até recentemente começar a pensar em pensamento binário e algoritmos e como eles influenciam a sociedade. Fiquei feliz ao ver a convergência entre aquilo que penso e sua experiência. Isso mostra que quando vemos a realidade além dos filtros, algumas verdades atravessam a tela e nos iluminam trazendo um quadro mais abrangente.

Falando a plataforma de palestras TED Talks[6] ele explana como viu a experiência dos algoritmos mudar o curso da web e como ela está criando algo perigoso socialmente falando:

À medida que as companhias cibernéticas se esforçam para adaptar os seus serviços (incluindo notícias e resultados de pesquisas) às nossas preferências, cria-se uma perigosa consequência não intencional. Ficamos presos…”

"Precisamos ter a certeza de q esses algoritmos tenham neles inscritos um sentido de vida pública, um sentido de responsabilidade cívica, de que são suficientemente transparentes... Porque precisamos que a Internet seja aquilo que sonhamos: que nos ligue uns aos outros" .

Pariser diz que ficou consciente de que estava sendo exposto apenas a um tipo de pensamento e direção política e até mesmo amigos conservadores que mantinha em contato para saber suas opiniões e aumentar seu grau de informação haviam desaparecido do radar. É como se o mundo ao seu redor fosse editado pelo algoritmo.

Isso faz eco à fala de Justin Rosenstein que disse em entrevista a BBC Brasil: "Se você continuar a mostrar às pessoas apenas as informações de que elas gostam, e não aquelas que contradizem suas perspectivas e podem desafiar intelectualmente, vamos criar bolhas onde as pessoas continuamente veem informações que concordam com o que elas pensam."

Tudo isso diz respeito a apenas uma coisa: Seu TEMPO. O negócio das empresas digitais é ditar como você usa seu tempo e como eles podem capitalizar sobre isso em cima dos seus gostos, exatamente aquilo que você programa ao digitar suas preferências nas configurações. O resto, seu gênio pessoal, o algoritmo fará por você.

O mais interessante é notar como esses garotões bem nascidos e ainda jovens perceberam que o poder que uma turma de algumas dezenas de programadores do Vale do Silício pode deter em suas mãos se não tiverem um freio ético e moral para para-los.

Entregamos nosso tempo e nossas mentes e também a de nossos filhos a empresas em cujo staff só constam programadores e experts em monetização usando ferramentas psicológicas de persuação e algoritmos avançados para capturar sua atenção e nenhum (enfatizo o NENHUM) Psicólogo comportamental ou pedagogo para dizer-lhes se o que estão fazendo é ético ou pode acarretar consequências sociais sérias como alienação parental ou desconstrução social em algum nível.

Nossa moeda mais preciosa é nosso tempo. O tempo de nossas vidas. O tempo da sua vida que não volta mais enquanto clica aqui e ali e curte posts e mais posts e edita fotos e comenta com paixão assuntos que estão aumentando essa bolha chamada web como se fosse algo urgente, como se você fizesse parte realmente de algo que você pode mudar a realidade se realmente militar pela causa correta.

Acho que você não gosta muito da ideia de ter descoberto que você é como um peixe fisgado pelas Big Techs e nesse exato momento está procurando o anzol em sua boca, não é mesmo?

Em resumo, talvez você não o conheça, mas ele te conhece muito bem. Talvez, melhor do que você mesmo, pois absolutamente tudo que você faz na web, tecla, opina, posta, compra, olha, interage, sem nenhuma exceção, deixou de passar pelo crivo de algum algoritmo elaborado com maestria para ser o seu gênio pessoal, algo como um guia espiritual, que o conduz, quase onisciente, quase onipresente, praticamente um deus, não no sentido absoluto do deus judaico cristão, mas mais como se fosse um deus pagão, um deus menor, não exatamente um olimpiano, mas ainda assim, um deus, um Baco, capaz de lhe proporcionar algo mundano, mas ainda assim, prazeroso.

Acostumamo-nos com a expressão Realidade Virtual, mas nossa ingenuidade perfeitamente racional, ocupada com as coisas práticas e concretas do dia a dia, nos levou a crer que essa expressão era exclusivamente destinada ao ambiente artificial criado para games. Mal poderíamos imaginar, já que essa é uma característica desprezada atualmente, que a realidade concreta da nossa experiência social atual seria na verdade fruto de diretrizes tomadas dentro de empresas que aplicam esse conhecimento em larga escala. 

Ou seja, nossa realidade social é hoje, literalmente, uma realidade criada virtualmente.Hoje, conhecemos o potencial viciante da maquinaria existente no mundo da realidade virtual dos games e apenas supomos o quanto essa engenharia poderia ser aplicada em experimentos sociais da realidade concreta. 

A escalada dos algoritmos e seus efeitos deletérios sobre a psique humana e o comportamento social ainda devem ser alvo de investigações mais profundas por ramos especializados em obter esses dados para que tenhamos a ideia de sua amplitude final. 

Até lá, é preciso levantar esse questionamento e levar esse debate aos meios apropriados para que o maior número possível de pessoas fiquem alertas sobre os riscos de ver a vida sob o prisma de escolhas baseadas em códigos binários.

Bem vindo aos dias do Deus Algoritmo, criado por mãos humanas para os humanos que vivem como deuses.


[1] O Poder do Mito/Joseph Campbell/Op.Cit.pág.31

[2] Ortega y Gasset/OpCit/pág 308

[3]https://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2018/12/19/facebook-compartilhou-mais-dados-com-gigantes-tecnologicos-do-que-o-revelado-diz-jornal.ghtmlhttps://g1.globo.com/economia/tecnologia/noticia/mark-zuckerberg-depoe-ao-senado-sobre-uso-de-dados-pelo-facebook.ghtml

[4] https://www.bbc.com/portuguese/geral-54366416 - Os 5 segredos dos donos de redes sociais para viciar e manipular, segundo o 'Dilema das Redes'

[5] https://www.bbc.com/portuguese/salasocial-43491789 

[6] https://www.ted.com/talks/eli_pariser_beware_online_filter_bubbles?language=pt