Este hino escreveu Shammuramate ao ser aclamada em todas as terras às margens do Tigre e do Eufrates como Deusa-Mãe dos deuses e de todos os povos, Doadora da Vida e Rainha dos Céus: 

“Doravante, todas as gerações me chamarão de Bem-Aventurada Mãe;

 Consagrar-se-ão a mim e trarão oferendas, oferecendo seus filhos e filhas em honra do meu nome; 

Estarei para sempre no coração dos filhos dos homens e eles jamais me esquecerão; 

Eu nunca morrerei, mas viverei para sempre, pois suas orações chegarão até mim, até mesmo em Irkalla, e serão como meu alimento; Eu sou aquela que atravessou os sete portões; 

E desfez a inimizade com a serpente, Eu sou aquela que é a primeira e a última; A amada e a desprezada; A casta e a devassa; 

A que abençoa e amaldiçoa; A esposa e a amante; Sou a que dá a luz e a estéril; 

Sou a mãe do meu marido e desposei o meu filho; 

Sou o cio da terra que farta as bocas famintas de pão e sou a estiagem que aniquila a prole; 

Faço amor e faço a guerra com o mesmo ímpeto; 

A morte não pode me abraçar, mas a sorverei como uma taça de vinho; 

Enquanto houver dia e noite, lua e sol, semeadura e colheita, eu serei uma prece e uma praga nos lábios dos homens; 

Virei a eles e serei sua mãe e amante; 

Serei um cálice para tontear as nações com o vinho da minha sedução do qual beberão os reis e povos até a embriaguez; 

Falarei de paz e farei a guerra Tragando suas vidas até meus domínios onde me assento vestida de púrpura e adornada de ouro e pedras preciosas, 

Montada sobre a fera que rege o mundo; Onde serei para todo sempre a Senhora, a Deusa.”    

I   

Loren Kuniakis faz em sua vida justamente aquilo que gostaria de fazer desde que era adolescente. Ela canta numa banda de rock. Não uma banda qualquer, que toca anonimamente em algum fundo de quintal esquecido ou numa espelunca embolorada para meia dúzia de garimpeiros do “underground”, mas uma banda de rock pesado de sucesso, o Bleed My Soul, com mais de vinte milhões de cópias vendidas mundialmente de seus quatro primeiros álbuns.  

Mas Loren não está exatamente feliz por isso. Poderia ser essa porra de névoa mental que insiste em nublar seus pensamentos e frustrar todo e qualquer esforço de ter uma linha de raciocínio digna de uma pessoa com neurônios e massa cinzenta dentro do crânio. 

Mas há algo mais. Algo sutil e sorrateiro por trás da névoa. Loren pode senti-lo. Como uma presença que se esgueira e se faz notar, porém, de modo imanifesto, velado, espreitando, aguardando oportunamente, movendo-se como um predador que tem plena consciência de que possui pleno controle sobre sua presa, desdenhando de sua impotência e sabendo que ela não vai muito longe em suas débeis tentativas de se afastar. 

Quem já presenciou um inocente e meigo bichano encurralando um camundongo desesperado vai entender perfeitamente. Há prazer envolvido no ato de leva-lo a morrer lentamente, desesperado e exaurido, como se alguma substância liberada pelo stress na ânsia da morte torna-se o sabor da sua carne mais atraente. Somente mentes simplórias afirmam que só o gênero humano mata por prazer. 

Houve um tempo em que ser uma estrela do rock era algo divertido, afinal, a realização de um sonho deve ser acompanhada de alguma satisfação pessoal, mesmo para alguém que sempre sentiu bater sobre seu ser as asas negras da melancolia. 

Hoje, numa era onde o romantismo foi abolido, chamam isso de depressão, uma doença clínica tratada com drogas produzidas para aliviar a dor existencial por breves momentos (ou esvaziar a pessoa de qualquer sentimento que seja). Antigamente, em meados do séc. XVI ao XVII, ser melancólico era uma enfermidade da alma inquieta, acossada por espíritos lúgubres, um requisito quase obrigatório para alguém que aspirasse pelas artes. O único remédio era o suicídio ou mergulhar de vez dentro desse estado assumindo-o como musa inspiradora. 

Assim surgiram muitos artistas que fizeram da melancolia sua pátria da qual extraiam grandes obras de poesia, música e artes plásticas. Foram mais tarde chamados de góticos, por sua dedicação em salientar ambientes sombrios de catedrais e castelos habitados por fantasmas eternamente perdidos entre mundos. Loren sempre sentiu-se como uma habitante desse país e sua matiz de cinza e tons pastéis é a cor da sua bandeira. Byron, Shelley, Poe, Wilde, entre outros, são alguns dos embaixadores desse país de sombras perpétuas. Ser melancólico não quer dizer que a pessoa deve amar o fracasso, mas sim estar em paz com seu próprio estado espirito ou a química do seu cérebro, se preferir. 

Desde que se lembra, Loren manifestou interesse em buscar a carreira artística para dar vazão aos seus sentimentos. É estranho e paradoxal, mas um melancólico, embora passe a maior parte de sua vida tentando se esconder do mundo, geralmente encontra refúgio nas artes, lugar onde o intuito principal é ser notado e, pior que isso, ser avaliado pela percepção de outros. De qualquer forma, Loren sentia-se impelida a isso desde cedo com sua inclinação musical e verve poética. Apesar da educação conservadora que a impedia expressar o que sentia no seio familiar, essa inquietação estava lá, latente, esperando ser ativada no momento certo. 

Encontrar algo que traga satisfação pessoal e fazer isso tornar-se sua ocupação principal é algo deveras buscado nos dias de hoje. O ser humano de antigamente não possuía tantas opções ou sequer direitos para isso. Satisfação pessoal hoje é algo relevante levando em conta que uma pesquisa da Universidade de Harvard apontou que 72% das pessoas não gostam ou não se sentem satisfeitas com o próprio trabalho. Dentre essa maioria, a pesquisa ainda apontou que cerca de 20% estão “completamente desengajados” em seus empregos, o que significa simplesmente que eles têm um interesse ativo em prejudicar as empresas em que trabalham numa espécie de morbidez patológica como o cão raivoso que investe contra a mão que o alimenta.

Loren deveria regozijar-se imensamente em sua escalada vitoriosa, pois hoje, aos vinte e seis anos, tem tudo o que a maioria das pessoas que chegam a nascer nesse mundo desolado sequer podem sonhar em possuir mesmo dando duro por uma vida toda: fama, respeito, dinheiro e poder para fazer simplesmente o que quiser pelo resto da vida. Isso é o que o sucesso no mundo do entretenimento proporciona. Você não é mais um mero ser humano. 

Qual é o título mesmo que dão a essas pessoas? “Estrela”. Sim. Um belo título. Muito melhor que condessa ou baronesa, ou mesmo princesa. Também muito mais significativo. 

Uma “estrela” é algo que foi posto fora do alcance das pessoas “normais”, fora da órbita de um mundo degradado e degradante. Significa alguém que não pode ser atingido nem deposto de sua posição por opiniões ou mesmo fatos, sejam eles reais ou inventados. Outrora reconhecido como humano, mas que, em dado momento, transcendeu a condição humana e viu-se tornado um olimpiano, digno de culto e veneração. 

Uma “estrela” é algo que não tem prazo de validade e não importa o que digam sobre ela. Estrelas não envelhecem e nem podem ser manchadas por qualquer coisa natural. Uma estrela é perene em seu brilho e nunca envelhece ou se desbota. Sem dúvida, quem cunhou o termo queria declarar algo com isso e conseguiu. 

Se quisermos ir mais fundo no assunto, culturalmente falando, teremos que fazer uma digressão e dizer que a ligação dos seres humanos com as estrelas e seu culto remonta aos primeiros passos da civilização. Desde antes da ascensão da Babilônia, os seres humanos tem deuses que são identificados com estrelas e planetas que brilham em nossos céus tal qual estrelas. 

Estes deuses astrais são cultuados e glorificados justamente por não serem como os seres comuns (que chato seria cultuar pessoas que são exatamente como nós). Maiores e mais poderosos sim, mas não exatamente melhores como nos mostram as mitologias antigas com seus deuses humanizados cheios de inveja, ira e luxúria. 

Certamente, não melhores, mas diferentes apenas. Os deuses antigos sabiam como serem deuses usando e abusando de seu poder e sedução. 

Quer dizer, eles não ficavam apenas flutuando sobre as nuvens cantarolando e fingindo que não estão nem aí para os mortais. Eles sempre fizeram questão de se misturar e meter o bedelho nos assuntos humanos, afinal, era isso, apenas isso, que os diferenciava dos humanos: um poder e uma capacidade tremenda para fazer o que quisessem, sem consequências ou reprimendas para eles. Um exemplo notório é Ishtar, deusa dos acádios. 

Era associada ao planeta Vênus, a estrela d’alva ou matutina. Vênus é o objeto mais brilhante no céu noturno depois da Lua, capaz de atingir uma magnitude aparente de -4,6 (Ok, isso está na Wikipedia e ali diz que isso é luminosidade suficiente para produzir sombra aqui embaixo!). 

A deusa associada a esse objeto celeste passou para a História e para a cultura de babilônios, egípcios, gregos e romanos com vários nomes como Ísis, Afrodite, Astarte, Diana, etc, mas sua personalidade sempre se manteve a mesma: Por vezes, deusa da guerra, por vezes, deusa do amor, por vezes, santa, por vezes, devassa, capaz de feitos extremos para atingir seus objetivos (como descer ao mundo dos mortos), ora sagrados, ora levianos, ora em prol dos seus parentes divinos, ora em prol dos seres humanos (mas muito mais a seu próprio favor mesmo) que a cultuaram por milênios erigindo templos suntuosos em sua honra, como o templo de Diana em Éfeso, uma das sete maravilhas do mundo antigo. 

Enfim, uma autêntica rock star! Ou, como diriam hoje em dia, uma mulher “empoderada” de verdade. Ishtar é derivado de estrela em acadiano, significando exatamente o objeto para o qual aponta nos céus, chegando a culturas opostas ao panteão indo-greco-romano como a judaica que importou do cativeiro babilônico até nossos dias o nome Ester, uma transliteração de Ishtar, e até a língua anglo-saxônica onde star (estrela) continua apontando para o alto (Não, nada a ver com o feriado de Easter [1] embora algumas pessoas tenham tentado associar os nomes por sua sonoridade similar – agora você pode jactar-se diante de seus amigos com essa informação!). 

Voltando para os dias atuais, tornar-se uma estrela do cinema ou da televisão é algo que, por si só, eleva uma pessoa a algo além do humano, ser uma estrela do rock mundial leva as coisas ao um nível totalmente diferente. Todos os adjetivos e qualidades listadas acima para uma “estrela” podem ser elevadas à segunda ou terceira potência quando estamos nos referindo a um rock star. 

Tornar-se uma legítima estrela do show bizz te permite não ser julgado pelas mesmas lentes que os humanos comuns, o fato de você ser um autêntico rock star faz com que, na verdade, as pessoas esperem que você aja e fale como tal. O que isso quer dizer? Você não é obrigado a saber, claro, mas deveria. 

A maioria dos artistas do mainstream que aspiram um dia tornarem-se uma “estrela” de primeira grandeza contratam pessoas para gerenciar sua imagem e controlar aquilo que sai na imprensa sobre eles. 

A grande maioria não deseja aquilo que se chama “má-propaganda”. Uma declaração infeliz pode por sua carreira no ostracismo e sua estrela incipiente, ainda de pouca visibilidade, pode ser ofuscada, ou mesmo, apagada por um incidente em alguma questão que fira a cartilha autoritária e artificial do “politicamente correto” com qualquer coisa que possa ser considerada “ofensiva”. 

Bom, isso pode acontecer especialmente nos dias de hoje. Mesmo as estrelas verdadeiras se apagam depois de alguns bilhões de anos.   Algumas campanhas publicitárias podem ajudar. 

Posar para fotos junto a campanhas humanitárias, tornar-se embaixador de alguma causa que a mídia identifique como “válida” também. Postar frases positivas nas redes sociais e nunca, nunca, dar alguma opinião baseada numa visão estritamente pessoal sobre algo fora do que está na cartilha. 

Vamos deixar isso claro: Isso se refere àqueles que aspiram ao estrelato. A maioria entre estes estão mais para estrelas cadentes, ou seja, que passam pelo céu visível, mas que não tem uma órbita fixa, ou seja, passam tão rápido, são tão fugazes que a maioria nem nota. Quanto aos rock stars verdadeiros, estes representam um capítulo à parte, comportando-se como os deuses da Antiguidade ou o super-homem de Nietzsche, acima do bem e do mal e além de toda crítica baseada na comezinha moral judaico-cristã, libertos dos cravos da mídia e da tal cartilha como um Jesus Superestar ressurreto. 

O que esperar de um autêntico rock-star além da transgressão de todos os limites impostos pela sociedade? Falar e agir como se a vida não durasse até o amanhecer, como se o amor e a morte não existissem, pois, na verdade, para tais seres, não existem. Só o prazer imediato e dionisíaco da vida agora. Esse é o credo. 

É o que se espera daquele que enverga tal manto. Que honre o panteão onde perfilam-se Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Bon Scott, John Lennon, John Bonhan, Amy Winehouse, Laney Staley, Kurt Cobain, entre tantos outros, qual Valhalla dos tempos modernos que recebe seus guerreiros valorosos. Live fast, die Young

A vergonha nessa fé é morrer de velhice, num leito de hospital.  Que vergonha, Keith Richards e Ozzy. A quem acham que estão enganando? Auto sacrifício no altar do rock é o que exigem os deuses do Outro Lado. Jim Morrison o sabia e cantou como uma cigarra até “Romper para o Outro Lado”. Um mandamento imperioso do Rei-Camaleão. Sem tergiversações ou concessões. Abrace o martírio e seja coroado para sempre. 

Longevidade é algo que deve ser aspirado por mortais comuns. Estrelas devem se revestir de imortalidade, daquilo que não é corruptível. 

A existência humana restringe um pouco o mito. O mito deve ir além e tornar-se definitivamente  aquilo que pensam dele. A fé dos crentes é o combustível da divindade e, então, produz-se a epifania. Sem fé, não há milagres como disse Jesus e Elvis realmente não morreu como testificam dezenas de milhares de apóstolos que o viram e até o fotografaram. 

As palavras e as atitudes moldam o mito, a fé dos seguidores produz o culto da estrela, mas a morte correta faz nascer um deus estelar cuja órbita não poderá ser demovida jamais. Loren Kuniakis foi descrita há tempos por um jornalista como a “Ozzy Osbourne de saias” da cena metal atual. 

Não que ela tenha dado fim à vida de algum morcego com os próprios dentes como fez o “Príncipe das Trevas”, mas a mitologia em torno da trajetória do Bleed My Soul é frequentemente comparada a dos jovens oriundos da poluída e escura Birminghan industrial que formaram o lendário grupo Black Sabbath em fins dos anos 60 e que desbravaram praias nunca antes pisadas fundindo um som pesado e lúgubre com letras que desnudavam toda desesperança de uma juventude já desiludida com o “sonho” paz e amor dos Beatles, flertando com a magia negra e a descrença geral nas religiões. Nada menos hippie. 

O sonho definitivamente havia acabado. Época de ser Lucifer’s Friends. Hora de encarar a realidade, hora dos Mestres da Realidade[2].   

O Led Zeppelin também investia num som mais pesado e também havia uma mitologia que os ligava à magia do bruxo inglês Aleister Crowley, mas a estética e o som genuinamente Heavy-Metal, a vertente mais maldita e exagerada do rock, foram forjadas na distorção extrema da guitarra de Toni Iommi e nos vocais esganiçados à beira do desespero de Ozzy Osbourne e nas letras geniais do baixista Geezer Butler, um autêntico estudante de magia, versando sobre sabás negros, loucura, guerra, drogas, etc, etc. 

O inferno em forma de som materializado sobre a Terra numa era de profundo desencanto. Sintomático e profético. O cover da antológica música “Black Sabbath” que o Bleed My Soul gravou em seu álbum de estreia ajudou a fixar ainda mais essa imagem. 

O próprio Geezer Butler chegou a declarar que a nova versão ficou ainda mais tenebrosa e teatral com os vocais ora líricos, ora beirando o gutural de Loren e a carga de tensão e peso trazida pelos teclados de Kevin Lunen. 

O Bleed My Soul segue a cartilha Heavy-Metal como foi iniciado pelo Sabbath ao pé da letra, mas vai além. Som sabático, cadenciado, pesado, unido à musicalidade erudita da banda que empresta um tom gótico às composições em meio a uma estética carregada de símbolos esotéricos e pagãos onde predomina o preto e os tons escuros. 

A linha musical da banda já foi descrita como melodic/symphonic/doom metal, um rótulo bem ao gosto dos analistas do ramo que adoram dar novas classificações a cada ano que passa e criar estilos musicais que não se distinguem uns dos outros.  Seguindo a tendência do som, as letras do grupo versam em grande parte sobre a melancolia da alma humana, o flerte com a morte e a incerteza que ronda o pós-vida. 

Nenhuma preocupação com o mundo atual ou com questões cotidianas. Alguns chamam isso escapismo ou alienação, a acusação de sempre contra o Metal, mas o som e as letras do Bleed My Soul tornaram-se emblemáticos para uma geração de jovens com camisas pretas, jaquetas com tachas de metal, cabelos longos ensebados e o entorno dos olhos pintados de preto ao redor de todo o mundo. Alienação ou não, escapar da realidade pode ser uma resposta quando não há qualquer explicação razoável sobre como chegamos a isso tudo que chamam “civilização”. 

A resposta da banda para isso parece de uma simplicidade que os jovens e adolescentes parecem captar de imediato, mas que passa ao largo daqueles que já adentraram a vida adulta “séria”: “Foda-se o mundo que vocês criaram; Nós temos o nosso”. Uma versão gótica e bem pesada de Neverland (que também poderia ser descrito como um eterno Wacken Open Air [3] por todo amante do rock pesado). 

A dor existencial de Loren e sua melancolia transposta nas letras a bordo do som pesado e viajante da banda transporta os fãs a uma dimensão onírica para fora de onde o impiedoso Deus judaico-cristão lançou  os seres humanos a fim de espiar o pecado original. A rejeição e a expulsão do Éden e o exílio humano numa terra de cardos e espinhos é um tema recorrente para o Bleed My Soul. “Pai, temos um problema com você”. 

Freudiano ou não, ali, em meio à névoa e à sombra de seres tenebrosos que só querem roubar nosso livre arbítrio, vagamos, livres, mas perdidos para sempre. Errantes, sempre em busca, mas sem nunca achar. O som elaborado da banda, em meio às camadas de baixo, guitarra, teclados e bateria, servem de moldura para o registro vocal de Loren, já descrito como único muitas vezes pela imprensa especializada em música que geralmente ignora solenemente os artistas do estilo. 

Mas a voz de Loren nunca poderia passar despercebida. Sua voz já foi descrita muitas vezes como a de uma mezzo soprano com inclinação dramática no início da carreira, mas, ao longo dos anos, com o alcance de sua voz chegando à casa de cinco oitavas (os cantores que ultrapassam três oitavas já são considerados como donos de “voz absoluta”) tornou o trabalho dos críticos muito mais difícil classifica-la com alguns identificando-a como soprano dramático coloratura e até mesmo como um raríssimo caso de contralto virago (uma verdadeira anomalia vocálica que faz com que a extensão da voz vá desde a tessitura de um contralto com graves baritonais até notas quase impossíveis de alcançar mesmo para sopranos) por causa do último trabalho da banda, o aclamadíssimo “The White of the Snow and The Red of Thy Blood”, onde a voz de Loren não apenas canta, mas torna-se um outro instrumento atingindo texturas musicais até então inéditas dentro do gênero e mesmo dentro da música pop contemporânea.

 Após seis anos ininterruptos de gravações, shows (cada ano em lugares maiores e maiores audiências) e compromissos contratuais, além de viagens intermináveis a todos os rincões do mundo, seis anos nos quais a banda não dá sinais de querer um hiato ou férias, seis anos de infindáveis festas em hotéis regadas a álcool e drogas, seis anos dos quais Loren mal se lembra de um dia inteiro, seis anos que se passaram com a banda passando de uma cidade a outra, dentro do tourbus, olhando pela janela a paisagem, distante e impessoal, Loren sentiu sua identidade esvaindo-se como areia espalhada ao vento.

Lampejos, fragmentos, flashes de memória como os flashes das câmeras dos fotógrafos, mas nenhuma memória realmente inteira, nada que ela possa dizer como sua realmente. Seis anos que agora lhe parecem terem sido vividos por outra pessoa e que ela é apenas uma passageira de si mesma, uma estranha.  

Loren sente que, quem quer que ela tenha sido, foi deixada para trás, nos primeiros dias quando tocavam em alguma espelunca underground muitas vezes apenas a troco de algumas cervejas. Geralmente, esses momentos a acometem fora dos palcos e longe do microfone, no quarto de hotel onde ela tem que se refugiar do assédio cruel dos fãs, no dia seguinte aos shows e dura o dia inteiro até a próxima noite, em outra cidade, em outro show. 

Até esse momento, ela apenas existe como uma pálida sombra lunar da estrela que brilha nos palcos, arrastando-se durante o dia, apenas consentindo em existir sem sentir-se como tal realmente. Uma apatia vinda de algures, uma ausência inexplicável de vontade, como um zumbi que perdeu o apetite por cérebros, que faz Loren desenvolver através dos anos aversão total a exposição na mídia.

Seu comportamento cada vez mais evasivo e arredio aos holofotes dos paparazzi causa, como sempre, o efeito inverso e quanto mais ela foge, tanto mais eles parecem se interessar por sua vida privada. 

O porta-voz e líder da banda, o tecladista Kevin Lunen, está sempre tentando convencer a imprensa de que Loren é uma artista que vive o que canta, sua dor, sua melancolia, e que prefere viver reclusa, mas o que a imprensa deseja são mais histórias de tabloide e boatos escandalosos acerca da vida privada da banda e o comportamento da sua cantora. 

O trivial tratando-se de uma rock star do seu porte, mas prato cheio para o apetite insaciável da mídia canibal. O que chama a atenção especificamente da mídia sobre Loren é seu comportamento ambíguo e doentio descrito por alguns como “beirando a esquizofrenia” e “digno de quem tem dupla personalidade”, pois Loren também já foi descrita tanto como alguém “totalmente desinteressante”, “sem qualquer expressão” fora dos palcos, onde se mantém assilábica e afastada o máximo possível das lentes, como também alguém “fora de controle” ou mesmo “trem desgovernado pronto para descarrilhar”. 

Sobre os palcos ou em dados momentos fora dele, a atitude da femme fatale do metal de longos cabelos negros como as asas dos corvos de Odin com as pontas pintadas de roxo (ou vermelho, ou azul...), do alto de seus 1,80 m chega a causar assombro levando as pessoas a pensar se não se trata realmente de um caso de TDI[1].   

São inúmeras as histórias e incidentes que só fazem aumentar a mitologia ao redor da banda e, é claro, a exposição na mídia e, consequentemente, a vendagem dos álbuns, o que sempre deixa a impressão de tudo se trata do jogo usual de auto promoção do show-business (“Falem mal, mas falem de nós”, disse Gene Simmons, o papa da auto promoção sobre o Kiss, no auge da carreira) ou apenas outro caso do personagem que engole o criador tão cliché e batido desde que Satã subiu nos palcos do paraíso no primeiro concerto de rock realizado antes da História e de lá foi chutado pelo primeiro Godfather de todos (Há quem diga que também foi o primeiro caso de stage dive [2] de que se tem notícia). 

Como quando Loren investiu sobre um segurança que agrediu em um fã na Alemanha com um ataque tão feroz de suas garras que arrancou pedaços do seu rosto e quase valeu as duas vistas do brutamontes. Processo amplamente coberto pela imprensa e indenização na casa dos cinco dígitos. 

Outros ataques sucederam-se posteriormente sobre assistentes de palco, tour managers e agentes de shows em diferentes lugares do mundo. Em Anaheim, USA, na tournée do segundo álbum, “Snake Full of Tricks” Loren despiu-se pela primeira vez sobre um palco com direito a mise–en–scéne de masturbação bastante convincente com o microfone enquanto gritava “Fuck me Jesus”. 

Essa foi apenas a estreia de Loren no circuito de escândalos internacionais do show-bizz. Na tourneé do terceiro álbum, “At the South of Eden”, a banda foi alvo de uma campanha raivosa promovida por setores ligados a igrejas cristãs pelo acontecido em Anaheim. Piquetes em frente ao local dos shows e passeatas em frente aos hotéis onde a banda se hospedava só mobilizaram os fãs da banda a tomar as dores de seus ídolos, o que causou vários tumultos generalizados e o arremesso de “At the South...” ao topo das paradas e a consagração da banda como fenômeno musical e midiático.

 Madonna correu para defender Loren e Lady Gaga fechou fileira ao seu lado gritando pela liberdade de expressão. 

Em Ciudad Juárez, no México, um país profundamente católico e caótico, Loren foi presa após o show por praticar felatio em público sobre o palco no tecladista da banda, Kevin Lunen, com quem mantem um relacionamento controverso desde o início da banda. “Jim Morrison reencarnou com vagina e voltou do outro lado ainda mais insano”, estampou em sua capa um grande veiculo de música. 

Kevin Lunen é o líder musical e porta-voz da banda, tido como o mentor por trás do conceito musical do Bleed My Soul, um músico de raro e comprovado talento, mas também tem a dura tarefa de apagar os incêndios deixados no rastro da namorada sempre dando explicações e justificativas sobre suas atitudes. 

Frequentemente perguntado sobre a natureza do seu relacionamento com Loren, ele costuma dar declarações de embora estável e duradouro, é de natureza aberta, sem compromissos ou contratos e que, por isso, os dois tem liberdade para fazer o que bem entenderem e encontrar-se com quem quiserem. A total liberdade de Loren quanto à suas escolhas e preferências é um dos assuntos de maior interesse para a imprensa, logicamente. 

Correm boatos sobre o comportamento nada recatado da “Deusa” fora dos palcos e de um triângulo amoroso que teria causado o afastamento do baterista original da banda, Seph Neris.  Neris saiu da banda profundamente consternado e magoado dizendo que “o que acontecia nos bastidores era simplesmente medonho”, prometendo dar declarações bombásticas sobre a intimidade da banda, mas pouco depois, foi encontrado morto em seu apartamento, em circunstâncias nebulosas. A perícia conclui que tratava-se de suicídio motivado pelo uso de drogas e um quadro depressivo. 

O envolvimento com outros rock stars e celebridades (como seu caso relâmpago com outra diva do pop que também já foi chamada de “A Besta” por setores religiosos) de Loren e sua extrema liberdade de escolha em relação ao gênero da pessoa com quem mantém seus affairs fizeram dela um ícone do movimento de “empoderamento feminino” e de comunidades LGBTQSvuw... pelo mundo afora, embora ela mesma nunca tenha declarado apoio a qualquer movimento, mas também críticas de pessoas consideradas liberais, mas que condenam seu comportamento considerando-o “impróprio” e que ela está “prestando um desserviço à causa feminina”. 

O Vaticano deu uma nota oficial onde repudiou o comportamento lascivo e obsceno da cantora como “anômico” e de “beligerância contra tudo que é sagrado” demonstrando preocupação com a influência que tais atitudes podem causar à juventude. A resposta de Loren veio num show da banda em Roma onde ela arriou sua calcinha e colheu sangue de sua própria regra dentro de um cálice dourado misturando-o com vinho. Elevando o cálice ao alto disse: “Este é o cálice do meu sangue, o sangue de uma nova aliança que eu derramo por vós”. 

Após ela mesma toma-lo, deu-o à plateia mais próxima diante do palco. Consta pelos jornalistas que cobriam o evento que muitos fãs, ensandecidos pela música e pelo clima ritualístico do show tomaram do cálice passando-o de mãos em mãos. De muito mau gosto para muitos, o gesto foi recebido por outros como “blasfemo, sacrílego... e genial”. Já outros declararam seu apoio sustentando que se tratava de “expressão artística” que não pode ser censurada. 

A repercussão do caso só elevou a magnitude da aura ao redor da banda, atingindo um histerismo que beira o fanatismo de um culto religioso. Ao contrário de tentar desestimular os mais fanáticos, Loren faz o contrário e, logo depois, em outro show, declara-se a sacerdotisa não de uma nova, mas da mais antiga religião surgida na aurora da humanidade. “Eu sou Shamuramate, Rainha e Deusa”, declamou sobre o palco; “Eu seduzo os homens até as gélidas águas do torpor da morte e os conduzo ao meu reino. Acham que podem deter o frio da geada ou o calor da chama que arde na fogueira? Tolos”

O cerco ideológico só vem crescendo ao redor da banda, especialmente depois que cinco jovens ingleses fizeram um pacto de suicídio supostamente influenciados pela música da banda. A polícia achou seus corpos numa casa abandonada no campo na cidade de Glastonbury, interior da Inglaterra. 

Estavam mortos há quatro dias. Eles haviam consumido haxixe e bebidas alcoólicas misturadas com mescal e absinto (bebida da qual os membros do Bleed My Soul são fãs declarados) e, dentro de um círculo do centro do qual emanam oito raios, símbolo pagão ligado a adoração a estrela Vênus e que foi incorporado pela banda, jaziam seus corpos em meio à muito sangue oriundo de profundos cortes verticais em seus pulsos. 

Nas paredes do local foram encontrados versos retirados da letra da música “Come and meet me”  do último álbum da banda. “O que és tu, ó morte, senão minha única amiga? Aquela que me aguarda por trás do odioso véu de Maya”

...Com a incidência cada vez maior dos “blackouts”, Loren começa a ficar assustada e sentir-se cada vez mais cansada e apagada, desvanecendo a cada dia, como se uma foto esmaecida editada num aplicativo de imagem. 

Pesadelos recorrentes, flashs de memória entrecortados como cenas desconexas de um filme, povoavam sua mente e a atormentavam, dando-lhe um sentimento de culpa por algo inexplicável que não tinha lembrança real de ter praticado, como o bêbado que acorda no dia seguinte sem recordar como chegou em casa. 

- Estou me sentindo como uma folha ao vento. Não consigo ter um pensamento válido sobre coisa alguma – disse Loren a Kevin há um ano e meio, antes de lançarem o quarto álbum. 

- Por que não pensa como uma profissional? Droga, Loren, isso aqui é uma empresa. Nem parece a mulher adorada no mundo inteiro, a deusa do Heavy-Metal. 

- Seu porco! Eu te odeio, seu maldito! Odeio essa banda e esse negócio todo! - Vai se foder! Odeia a única coisa que sabe fazer direito na vida?

 - Eu não quero brigar – diz desabando no sofá e sentindo-se ainda mais impotente – Não tenho forças. Por que não podemos simplesmente dar uma parada? Já temos dinheiro suficiente pra gastar o resto das nossas vidas. Vamos parar durante um ano, ir para algum lugar e fugir disso tudo. Era tão diferente no início. Agora, parece que somos funcionários de uma fábrica. Onde está a liberdade que queríamos, hein? 

- Parar? Você enlouqueceu de verdade? Você não ouviu nada do que eu falei? O Bleed My Soul está a um passo de se tornar uma das maiores bandas de metal de todos os tempos e você quer simplesmente fugir de volta para o buraco de onde saiu? Você lembra do que você me falou lá no começo de tudo? Hein? Lembra ou não? Você disse: “Eu daria minha alma para ter sucesso, para ver seu sonho realizado, Kevin”. O meu sonho era seu sonho e agora você me vem com essa. Ouça, uma coisa: O meu sonho ainda não está realizado. Ouviu? Vai querer dar para trás comigo agora, é? Depois de tudo que eu fiz por você? – acusa Kevin apontando o indicador no rosto de Loren como se fosse uma arma. 

- Não, não... Não é isso, Kevin. Você sabe que vou onde você estiver e nunca vou dar as costas pra você, mas é que... Droga! Estou me sentindo tão... Cansada – diz afundando o rosto entre os braços num pranto convulsivo. 

- Ei, ei – diz Kevin chegando ao seu lado e abraçando-a – Desculpa, desculpa. Tá tudo bem, “Mina” – diz chamando-a pelo apelido íntimo do casal numa referência à personagem seduzida por Drácula no romance de Bram Stocker 

- Vamos ficar juntos para sempre – diz, limpando seu rosto das lágrimas que descem seus olhos de um tom turquesa atordoante. Se precisar, eu dou meu sangue pra você exatamente como o “Morcegão” faria. Quer um pouco agora pra se sentir mais forte? – diz fazendo o gesto de rasgar a veia do pulso dando-o para Loren sorver seu sangue.

 - Bobo – diz Loren afastando-o enquanto Kevin tenta se aproximar para ataca-la como um vampiro faria – “Morcegão” feio – completa fazendo beicinho de criança contrariada. 

- Só mais um álbum e uma tournée, doçura. É tudo que eu te peço. Vamos gravar nosso melhor álbum... Você sabe que podemos fazer melhor. E aí, então, mais um ano excursionando e, então, após lançar nosso álbum ao vivo, vamos descansar, eu prometo. 

Esse ano e meio foi o tempo mais intenso de trabalho para a banda, entre a gravação e lançamento de “The White of The Snow and The Red of Thy Blood” e a mega turnée mundial, com a banda atingindo um patamar de reconhecimento e sucesso nunca antes atingido pela banda: Indicações e premiação no Grammy por melhor performance metal e melhor vocal feminino (embora uma participação ao vivo da banda tenha sido vetada pelos produtores, receosos de alguma indiscrição de Loren ao vivo para cerca de um bilhão de pessoas), mas também o ano em que Loren sentiu-se ainda mais tragada para dentro de si mesma, como se afundasse num poço de areia movediça.  

O vazio e a dor de não achar-se dentro de si mesma chegam às raias do desespero. O vazio toma forma em sua mente como uma entidade real que a chama e espreita e Loren teme por sua sanidade. Nada, porém, comove ou faz com que Kevin considere dar um tempo, acusando-a de ser infantil e cheia de caprichos. All the way to the top, baby

As reminiscências de Loren são interrompidas por duas batidas rápidas na porta do camarim. Loren sabe o que significa. Uma carinha feminina aparece na soleira. - Tá na hora, musa. Os meninos estão te esperando – diz a jovem assistente de palco de cabelos de cor indefinível pela quantidade de tons diferentes aplicados. 

É a hora. A última “perna” da turnê de promoção do aclamado “The White of the Snow and The Red Of Thy Blood” que incluiu quatro grandes shows na Grâ-Bretanha dos quais faltam apenas dois, incluindo esse. Hoje, o show será gravado para ser lançado em forma de vídeo. Tudo tem que correr perfeitamente. 

Loren olha no espelho pela última vez. Ela parece estar lá. A imagem é sua, como ela sempre se reconheceu mesmo sob a maquiagem pesada e a indumentária que mistura couro, tecido e apliques de metal num modelo ousado inspirado na era vitoriana (encomendado de um grande estilista de moda) confeccionada para ela subir aos palcos e arrasar corações e mentes, mas algo não está certo. “Atravesse o espelho e venha se unir a nós...” “Atravesse o espelho”... Loren sabe do que se trata. 

Nos últimos tempos, os “blackouts” vêm acompanhados de episódios aterrorizantes de paralisia do sono.  Ninguém pode descrever, ao certo, o horror vivenciado por alguém que, embora desperto, não pode falar ou mover um musculo sequer, além da sensação indescritível de que está ali como uma mosca colada num daquelas armadilhas e que seu captor está em algum lugar bem perto, observando e regozijando-se enquanto você se debate pateticamente. 

Lembrança mesmo apenas de um pesadelo recorrente onde tem lembranças de perambular por esse lugar estranho, como um grande castelo de muitos aposentos feita com pedras monolíticas. Loren parece desesperada para encontrar a saída, mas na entrada de cada quarto, ao invés de uma porta ela encontra um espelho. 

Ao que lhe parece, a saída pode ser atravessar qualquer desses espelhos, mas ela nunca sabe qual deles e sempre que para em frente a um, ela contempla sua imagem lívida, cadavérica como alguém destituído do dom da vida. 

Quando se aproxima do espelho e estende a mão para toca-lo, ela sente sua superfície como uma superfície líquida e, então, de dentro do espelho, mãos nojentas se precipitam sobre ela tentando arrasta-la para dentro daquele mundo amorfo e torna-la como eles. 

Ela sente algo revolver-se dentro dela como se uma serpente deslizasse sob sua pele aninhando-se em suas entranhas e contraindo-se sobre si mesma para criar a tensão necessária para o impulso que permitirá o bote mortal. 

Seus olhos a traem ou ela realmente a vê por uma fração de momento, num piscar de olhos, como a pele escamosa e brilhante de uma serpente rastejando por detrás do branco de seus olhos, como se sibilasse internamente “Deixe-me sair”? Levantando-se e saindo apressadamente do camarim, Loren considera que talvez esteja realmente enlouquecendo e que a maior evidência disso é  não confiar na própria imagem refletida no espelho.



 [1] Transtorno Dissociativo de Identidade   

[2] Prática comum nos shows onde se sobe ao palco e joga-se sobre o público   

[3] Maior festival de Metal da Europa