Um conhecido e indesejado sentimento se apodera das entranhas de Jonas Pilger, como uma sombra sorrateira esgueirando-se por sarjetas imundas de sua alma, um sentimento de impotência mesclado a uma revolta interna contra um mal contra o qual ele não possui o poder para reverter, sentimento o qual vai dando lugar a uma forma de asco por si mesmo, que culmina na sede bem conhecida, que lentamente se apodera de sua garganta. 

O que diz mesmo o “segundo passo”?     

“Viemos a acreditar que um Poder Superior a nós mesmos poderia devolver-nos à sanidade”. 

Poder superior? Se tal “coisa” existe, pensa Jonas, deve ter algum tipo de senso de humor perverso para devolver a sua sanidade para em seguida faze-lo testemunhar como a pessoa que ele mais ama veio a perdê-la.       

Lentamente, Jonas sai do estado de choque que o acometeu a princípio e aproxima-se do leito hospitalar em um dos quartos do Centro de Pesquisas Neurológicas que se encontra no campi de uma grande universidade no interior do estado de São Paulo, onde encontra-se uma figura feminina inconsciente de sua presença.      

Seu estado de saúde parece inspirar grandes cuidados, a julgar pela parafernália conectada a seu corpo para medir seus sinais vitais, além dos cateteres usados para medicação intravenosa. 

Mas, para além disso, o que mais impressiona Jonas Pilger é a aparência estampada nas feições daquela que ele já não vê há dois anos.      

Terrificado ele observa a profundidade das trevas que caíram sobre as órbitas dos olhos, outrora plenos de fulgor, como buracos negros macabros que sugam toda luz ao redor. 

Como terra castigada por estiagem, sua pele envelheceu e se veem os sulcos que advém de um sofrimento intenso como que imposto por um sol inclemente. 

Seus lábios, outrora viçosos como frutos da estação, agora se murcham e partem-se como expostos a um poder que usurpa-lhe a seiva da vida. 

Ainda mais terror Jonas sente invadir-lhe a alma quando vislumbra o espetáculo terrível nos membros superiores dela, os quais ele verifica estarem fortemente amarrados à cama pelos antebraços por tiras de bandagem.      

A sede implacável parece rasgar-lhe a garganta enquanto ele vem a lembrar-se do “oitavo passo” (“Assumirei a responsabilidade por meus erros e perdoarei os outros assim como eles me perdoam. Concede-me a disposição de começar minha reparação. É Tudo o que TE peço”) e de como a vida pode colocar algumas coisas de modo repentino tão longe de qualquer chance de reparação. 

Na altura do pulso esquerdo, Jonas percebe que o curativo oculta um grave ferimento indicativo de uma tentativa mal sucedida de pôr fim a tudo aquilo.         

- Lívia! – escapa de seus lábios como um expirar pesado, mas, ainda assim, incapaz de aliviar a pressão em seu peito; Verbalizar seu nome é bom, é como viver de novo, pensa.      

Seu nome é Lívia Montemor e Jonas foi feliz com ela num tempo de sua vida que parece fazer parte de uma outra que não essa, um tempo que assume hoje características de algo bom demais para pertencer a este mundo e a classe de coisas passageiras que a ele pertencem, parecendo-se mais com o teor das coisas que as pessoas acostumaram a associar com paraíso e com coisas que duram para sempre. Um estado de felicidade sem limites ou tempo preciso.      

No emaranhado de emoções que se revolvem em sua mente, uma pergunta inquietante sobressai: “Como isso aconteceu?”      

No instante seguinte, como que para responder sua pergunta, uma figura vestida de jaleco branco irrompe pela porta do quarto estancando na entrada ao percebê-lo ali, parecendo surpreso.      

- Ah... Senhor... Jonas, não? – diz o recém-chegado, estendendo a mão direita para cumprimenta-lo com um ar desconfiado; Certamente, pensa Jonas, o médico responsável por manter Lívia assim 

– Não achei que estaria aqui... Não disseram ao senhor para esperar pela chegada dos Montemor no hall de entrada? – indaga o doutor mostrando desaprovação a presença de Jonas ali.      

- Desculpe-me – diz Jonas sustentando o olhar firmemente sentindo que sua presença não é desejada ali 

– Sou Jonas Pilger, ex noivo de Lívia. Acho que os Montemor avisaram sobre minha vinda, não? E o senhor é...?     

 - Eu sou Douglas Ferretti, o médico responsável por Lívia e por esse centro de pesquisas. Sou amigo dos Montemor há muitos anos e eles me pediram para cuidar pessoalmente de sua filha.      

- Então é o responsável por manter Lívia nesse estado – dispara Jonas apontando para as amarras nos braços dela – E, pensando bem, já ouvi falar do senhor. Alguns criticam seus métodos e algumas pesquisas que desenvolve nesse lugar – diz usando uma de suas técnicas favoritas para inverter a situação.    

- Sei o que parece, Sr. Jonas, mas aqui só fazemos aquilo que é estritamente necessário para o bem estar de nossos pacientes – responde Ferretti defendendo-se - Acredite-me, foi necessário, embora eu não goste de tomar essas medidas. Mas... Vejo que não respondeu minha pergunta.      

- Er... Avisaram-me, sim, para esperar no hall, mas, a porta para esta ala estava aberta e, talvez pelo horário, não havia muito movimento e não fui notado. Peço desculpas, mas sou jornalista e bisbilhotar é quase uma compulsão para mim.      

-Os Montemor chegaram a pouco e estão na minha sala, me aguardando e a você também. Agora, se me acompanhar, poderemos falar sobre o caso juntos... – diz Ferretti envolvendo Jonas e fazendo menção de conduzi-lo para fora.      

- Doutor –  Jonas para o doutor que já o conduzia para a porta – Me desculpe se pareci intrometido entrando numa área restrita, mas deve saber pelos Montemor que eu e Lívia fomos noivos. Não sei direito porque foram me chamar depois de tudo... Bem, de tudo que aconteceu entre nós, mas deve entender que é um choque para mim encontra-la nessas condições. O que aconteceu com ela? Ela corre risco de vida?      

- Bem – suspira procurando os termos corretos - Agora, ela está estabilizada, mas o caso de Lívia é, digamos, pouco comum. Como deve saber, tratamos de distúrbios graves da mente neste centro e com os recursos disponíveis temos feito alguns avanços sensíveis nas pesquisas e no tratamento de alguns males do cérebro pouco conhecidos em sua complexidade. Por hora, posso dizer que o quadro de Lívia é estável e isso só quer dizer que já esteve pior. Se ela ainda corre risco de vida é algo que precisa ser avaliado e vai depender de alguns fatores. Desculpe-me se isso parece vago demais, mas há alguns pormenores sobre o quadro clínico dela que gostaria de tratar exclusivamente na presença dos pais dela.     

 - Entendo doutor. Só mais uma pergunta: Ela tentou se matar?  

 - Sim, infelizmente. Antes de chegar aqui ela tentou cometer suicídio durante uma crise paranoica. Agora, vamos, e eu lhe colocarei a par de tudo juntamente com os pais dela.      

Jonas deixa-se conduzir pelo doutor para fora, não sem antes lançar um último olhar ao leito de Lívia. 

Nesse mesmo instante, o corpo até então inerte de Lívia começa a estremecer convulsivamente como que atravessado por ondas de choque.      

- Doutor! – exclama Jonas estancando à porta e retendo Ferretti.     

 - Hãh... O quê? – diz Ferretti voltando-se para olhar em direção ao leito de Lívia.      

Os dois testemunham o corpo enfraquecido e amarrado à cama contrair-se e retesar toda a musculatura num espasmo terrivelmente doloroso, mas nenhum som escapa de seus lábios, embora sua boca esteja aberta como numa máscara do mais puro terror. 

Suas costas se dobram de forma inumana para cima enquanto seu pescoço é jogado para trás e, por um momento eterno para os dois perplexos espectadores, ela permanece ali como que suspensa no ar, somente amarrada pelos antebraços e pelos tornozelos, como alguém que emerge da água e busca desesperadamente pelo ar que não chega aos pulmões. 

Antes que qualquer dos dois pudesse esboçar qualquer ação, a sala é inundada por um som gutural, como um rugido, saído de dentro da boca de Lívia, mas que, em nenhum momento poderia sair de suas delicadas cordas vocais.     

 - O-lah-teh-hah-mehhh-ziray-o-nah-ay-na-eh – retumba a voz inumana pelo quarto com a força de um trovão que irrompe pelo corpo de Lívia para, logo em seguida, abandona-lo como se fosse um saco vazio despojado de toda vitalidade.      

- Lívia! – Jonas atira-se ao leito de Lívia achando que talvez estivesse morta, mas verifica rapidamente que ela está respirando e já não há sinal algum de agitação em seu corpo, voltando a exibir os sinais anteriores de profunda letargia.  

Sem perder tempo, o doutor Ferretti afasta Jonas e curva-se sobre Lívia, passando a examina-la, puxando suas pálpebras para perscrutar seus olhos sem expressão alguma de consciência e verificando os dados exibidos no display do moderno monitor paramétrico ao lado do leito de Lívia que monitora seus sinais vitais.        

- Eu... – balbucia Ferretti – Não entendo. Isso não deveria acontecer. 

- Ela está bem, doutor? – pergunta um assustado e confuso Jonas sem tirar os olhos de Lívia;      

- Ao que parece, sim, a julgar pelos sinais vitais. Não há sinal algum de que... “isto”... Tenha causado algum efeito mais grave...     

- E O QUÊ foi “isto”, doutor? – indaga Jonas de modo incisivo.

Ferretti fita Jonas com o olhar perturbado de alguém que se encontra diante de um grave dilema.      

- Meu jovem, apesar de ser um cientista nunca pretendi ter todas as respostas. Sei da ligação emocional entre vocês, mas o caso de Lívia não traz respostas fáceis. A mente humana ainda é um labirinto para nós, cientistas, apesar dos incríveis avanços das últimas décadas. Acho que devemos sair daqui agora e conversar em minha sala onde os Montemor já devem estar nos esperando apreensivos. Peço que não comente nada do que presenciamos a eles. Já estão com ideias estranhas o suficiente.      

- E não é para menos porque isso se pareceu muito com a merda de um filme de terror, doutor! Eles já haviam visto ela em estado parecido com isto?      

- Não exatamente. Mas, para tudo isto, creio que há uma explicação razoável e não precisamos recorrer a absurdos. Por exemplo, sua presença aqui pode ter afetado seu estado mental de alguma forma e é urgente que saiamos daqui. Vamos – diz, conduzindo Jonas apressadamente para fora - E lembre-se: Nenhuma palavra sobre isso aos Montemor e prometo informa-lo em primeira mão de tudo a respeito de Lívia.     

Como prometer exclusividade ao um jornalista é como prometer doce a uma criança, Jonas deixa-se conduzir por Ferretti para fora do quarto.