José Ortega y Gasset foi um filósofo espanhol do início do séc. XX que escreveu sobre filosofia e política para uma Espanha e uma Europa prestes a entrar num século onde a violência estatal culminaria num sem número de conflitos com milhares de mortos e tudo isso para estabelecer os ideais democráticos e o direito internacional das nações. 

Em seu livro mais famoso, A Rebelião das Massas de 1929 ele fala sobre o estado de coisas na Europa, sobre o surgimento do chamado homem-massa, o homem que só tem opiniões alheias mas é expert em tudo, e de movimentos como o bolchevismo e o fascismo. 

O espanhol também apresenta nesse livro uma analogia interessante para entendermos a atuação do Estado sobre o indivíduo e como agem suas forças sobre a sociedade. Somos docilizados a essa violência estatal desde o primeiro momento e nos habituamos a ter o Estado como nosso amigo urso como ele afirma em uma narrativa onde um homem possui um amigo urso que caminha com ele por um caminho. 

O homem, cansado da caminhada, recosta-se a uma árvore e adormece. Um inseto pousa sobre o homem e o urso, solícito, tenta matar o inseto para proteger o homem de uma possível picada, mas sua força desmedida acaba matando também o amigo humano. Essa é a personificação do Estado na visão do espanhol Ortega y Gasset, pois, embora se mostre amigável inicialmente ao homem, sempre agirá sobre ele com uma força excessiva tornando essa amizade prejudicial. 

No capítulo 13 dessa obra, intitulado “O maior perigo, o Estado”, Gasset tece a gênese do estado de direito moderno e “democrático” afirmando que aquilo que se considerava como Estado por volta do fim do séc. XVIII podia ser considerado “bem pouca coisa”. 

Em sua maioria, as nações europeias, comandadas por famílias nobres, imbuídas de ideias conservadoras e de tradições petrificadas por gerações, embora cheias das “virtudes” dos nobres, andava “mal da cabeça”. Ou seja, eram incapazes de acompanhar as mudanças técnicas que empurravam a civilização europeia para outro paradigma civilizatório e foram incapazes de inovar. 

As inovações necessárias foram trazidas por outra classe de homens, mais práticos e sem nobreza, os esnobes burgueses. Segundo o espanhol, a palavra esnobe designa justamente a ocupação e a classe da pessoa, que era marcada nas listas de vizinhos, um costume dos britânicos, com a abreviatura “s.nob.”, ou seja, sem nobreza. 

A incapacidade de inovação e racionalização do serviço burocrático estatal mostrada pelas realezas seria a causa dos estados débeis da época frente ao crescente poder (até militar) e influência da classe burguesa e também de uma sociedade cada vez mais insubmissa pelo fluir de ideias libertárias que finalmente entraram com força nas almas tementes a D’ux. 

Por essa insubmissão ao aumento do poder das classes governantes e dos nobres que os apoiavam, os governos da época, por medo de revoltas populares, declinaram da vontade de expandir o controle estatal cedendo espaço cada vez maior para o poder inovador e organizador da classe burguesa. O que se mostrou um verdadeiro tiro no pé. O Estado que surgiu, então, é o oposto daquele que o antecedeu sendo, como produto de mentes brilhantes, dinâmico, racional e projetado para a eficiência de resultados. 

De modo contraintuitivo como pareça, Ortega crê mesmo que o antigo absolutismo europeu respeitava instintivamente a sociedade muito mais do que nosso Estado democrático. Como assim? Ele prossegue dizendo “Plantado no meio da sociedade, basta acionar uma mola para que suas enormes alavancas se ponham em ação e operem fulminantes sobre qualquer membro do corpo social... Esse é o maior perigo que ameaça a civilização hoje: a estatização da vida, o intervencionismo do Estado, a absorção de toda espontaneidade social pelo Estado... A sociedade terá que viver para o Estado; o homem para a máquina do governo”. 

Ou seja, aquilo que chamamos hoje de “estado democrático de direito” é uma invenção oriunda de mentes racionalizadoras do processo burocrático e esse projeto, voltado para a eficiência máxima da máquina estatal, não possui limites definidos em sua concepção o que equivale dizer que o Estado em si, como organismo, pode crescer indefinidamente (como células cancerígenas!) e ocupar todos os espaços da vida pública, o que de fato pode ser constatado analisando a História do séc. XX e os rumos atuais das nações. 

No começo do séc. XX acreditava-se que o único nemesis da democracia era o autoritarismo seja de esquerda, representada pelo comunismo, ou de direita, representado pelo nazi-fascismo. Hoje, porém, há razões para crer que esse Estado eficiente, adaptativo e em constante mutação para adequar-se a uma sociedade líquida pós-moderna não precisa emular velhas fórmulas de autoritarismo, pois, sempre crescendo e nunca cometendo o erro das velhas realezas de diminuir a si próprio e ficar datado, engendrou novas fórmulas para manter-se atualizado e em constante crescimento, penetrando de modo tão capilar nas entranhas da sociedade para ser tão onipresente, onipotente e onisciente quanto possível como nunca antes sonhou o Estado absolutista de Hobbes. 

E isso sem perder a aparência de “democrático”. Como disse depois Aldous Huxley, dez anos após o lançamento de Admirável Mundo Novo:  

“Não há, por certo, nenhuma razão para que os novos totalitarismos se assemelhem aos antigos. O governo pelos cassetetes e pelotão de fuzilamento, pela carestia artificial, pelas prisões e deportações em massa, não é simplesmente desumano... é, de maneira demonstrável, ineficiente – e numa época de tecnologia avançada a ineficiência é o pecado contra o Espírito Santo” 

De fato, embora ouçam-se vozes esparsas aqui e acolá clamando pela utopia unicórnica do “Estado Mínimo”, o que vemos na prática, em todo o mundo dito democrático, é o inverso. O poder estatal está aumentado e muito no mundo dito “democrático” e essa é uma tendência que atinge todos os níveis da sociedade. 

O aparelhamento estatal está disperso, atuante e vigilante contra o indivíduo e basta que ele acione uma de suas molas para que nós sintamos onde estivermos o tapa do urso amigo. O aumento do poder estatal está baseado no apoio que ele recebe de pessoas com mentalidade coletivizante que acreditam que a atuação estatal é necessária para organizar a vida humana em sociedade e esse tipo de homem foi chamado pelo filósofo espanhol de homem-massa. 

O homem-massa crê que ele e o Estado são amigos e são uma única coisa, um único ser coletivo: “A massa diz a si mesma: ‘O Estado sou eu’ o que é um erro perfeito”. O visionário espanhol conclui dizendo que esse homem-massa ajudará a fazer com que o Estado funcione sob qualquer pretexto e “a esmagar com ele toa minoria criadora que o perturbe em qualquer instância: na política, nas ideias, na indústria”. 

Não é justamente isso que temos visto hoje em dia? Pessoas que se consideram perfeitamente “democráticas” apoiando a violência estatal contra indivíduos sob pretextos sanitários e de segurança pública? “Liberais” que apoiam o uso do peso judicial de uma Suprema Corte contra opositores políticos por supostos crimes de opinião passando por cima de tudo que está escrito no ordenamento jurídico? 

É esse o Estado amigo urso, que, se é uma ameaça mortal até mesmo para aquele que o apoia, imagine como ele agirá contra aquele que se mostra seu inimigo?

Podemos concluir dizendo que lutar contra o aumento do poder estatal no mundo parece uma luta inglória, mas mesmo assim, devemos apoiar iniciativas mesmo que pequenas que visem diminuir o controle estatal nos mais diversos setores e criar bolsões livres de interferência, free-zones, como no caso do Bitcoin na área financeira, que se tornem viáveis e atrativos para que cada vez mais pessoas possam vislumbrar a viabilidade de iniciativas que nos libertem das garras estatizantes e do seu poder de coerção. Isso, a longo prazo, só pode nos fazer bem como consumidores, investidores, cidadãos e seres humanos.

 Esse artigo foi baseado no capítulo 2 do livro “Pensamento Binário Vol.II – Meta-Estado, Democracia e o Meme-Letal”, “Estado, o amigo urso”.