Após mais vinte anos de seu lançamento, o filme de David Fincher de 1999, baseado no livro de Chuck Palahniuk, continua suscitando discussões e promovendo o debate acalorado de ideias entre o público e estudiosos em geral, seja do comportamento ou das ciências sociais mostrando mais uma vez o quanto o cinema e as artes cênicas podem ser instigantes na criação de um ambiente dialético, ou seja, no choque entre visões que caracteriza essa busca pelo que nos move internamente, essa curiosidade incessante que nos guia ad aeternum não só na questão de quem somos, mas também na não menos inquietante questão sobre como viver, qual a maneira correta de se conduzir perante o mundo, esse “monstro caótico” colocado diante de nós.

Essa “maneira correta”, ela existe? Deveria ser buscada, é passível de ser encontrada ou trata-se apenas de outro “platonismo” a ser deixado de lado nessa era fortemente agnóstica? Mais: essa busca não poderia ela mesma tornar-se uma máscara que nos afasta da verdadeira busca filosófica? É bom que se diga que o filme é uma sátira e é engraçado ver "nêgo" tentando tirar dele teorias sérias sobre nossa sociedade "cosmética" e sobre os "processos capitalísticos de venda de imagens" e como sátira ela exagera ao extremo situações e nuances não para evidenciar aquilo que parece óbvio, mas justamente para não dar a sua verdade de bandeja aos que procuram obviedades. O filme presta-se a isso e é o que se espera de um filme de cunho conceitual: que cada um faça sua leitura de acordo com aquilo que pode retirar dele.

Assim, os que esperam violência a encontrarão de maneira farta e quase pornográfica e se satisfarão com as cenas de ação e explosão e a trama rocambolesca. Os que procuram conspirações, procurarão quadro a quadro mais cenas com caráter subliminar e ficarão alarmados com a cena final que mostra duas torres gêmeas colapsando exatamente como no atentado de 11 de setembro de 2001 (como dito, o filme é de 1999!!).Em resumo, o filme é um caldo farto bem ao gosto da cultura pop/cult e se apraz em idolatrar sua próprias contradições explicitadas no filme as quais, intencionalmente ou não, foram deixadas ali pelo diretor. Por exemplo: a frase de Tyler “Auto aperfeiçoamento é masturbação” em resposta a ojeriza de Jack frente a um cartaz que exibia corpos definidos num anúncio comercial é contraposta pelo abuso da imagem do próprio Brad Pitt no auge da forma física, artifício usado para alavancar o filme junto ao publico feminino. 

Ou quando Durden diz “Somos uma geração criada por mulheres”, mas mesmo assim cria um tipo de clube não inclusivo (um lugar onde ele certamente não levaria a mãe que o criou) onde a tônica poderia ser interpretada como machista nos dias de hoje, vinte anos depois e em plena vigência do controle do politicamente correto na mídia. Por fim, outro exemplo em meio a muitos, seria o messianismo de Durden ao afirmar que estavam em uma “guerra espiritual” quando não há lugar para espiritualidade alguma em uma geração absolutamente niilista e, por essa mesma causa, narcisista.

É interessante também notar que o personagem principal interpretado por Edward Norton é chamado simplesmente de “Jack” o tempo todo enquanto seu alter ego tem nome e sobrenome, como se fosse ele a pessoa real e completa e não aquele de quem emergiu.Jack tem problemas sociais e cognitivos subdiagnosticados por um médico num plantão de emergência e sua descida ao abismo é vertiginosa e inexorável e sua insônia crônica leva-o a um quadro agudo de dissociação de personalidade. É cômico ver alguns (até mesmo sociólogos e filósofos) caírem na balela de que a causa da sua apatia social e niilismo seria o capitalismo ao qual é induzido pelo “sistema” onipresente e opressor a comprar coisas de que não necessita, o que o leva a “coisificação” da sua existência. Essa é a parte fácil: identificar um culpado e o capitalismo está sempre lá para ser surrado com qualquer pau ou pedra tal qual um judas num sábado de aleluia.

Somos induzidos a isso pela narrativa em primeira pessoa do filme onde Jack expõe como dispendia sua preciosa “mais valia” frente às exigências e pressões de uma sociedade que exige padrões de sucesso e estética insustentáveis. Soa familiar. Soa como alguém que diz que o problema dos muçulmanos é o Alcorão. Tyler, a “sombra” jungiana na personalidade de Jack, ascende quando Jack assume de vez seu niilismo passivo ao envolver-se nos grupos de ajuda. “Something happen... I let it go... Lost in oblivion... Dark... Silent... Complete”. Como oposto, Tyler Durden é diferente, mas não muito.

Deleuze, que sistematizou o conceito de Niilismo de Nietsche,  o chamaria de “niilista reativo”, o falso Ubermensh, aquele que tem um plano para salvar a todos. Formas reativas de niilismo aceleram as formas niilistas e seus piores sintomas como ressentimento, má consciência, ideais ascéticos, etc. (para ler: https://razaoinadequada.com/filosofos/nietzsche/4-formas-de-niilismo/) 

Para um reativo como Durden, Deus está morto (como ele mesmo se refere ao compara-lo com os pais que o abandonam diante do mundo) e, portanto, devemos assumir seu trabalho por um mundo novo, com regras novas. Tyler Durden não é o super-homem, é só outra máscara do tipo revolucionário com um ideal, tipo bastante em voga já há algum tempo o qual tem uma receita para “melhorar o mundo”.Esse tipo de pensamento tem guarida na intelligentsia praticada nos meios acadêmicos há muito tempo e reforça o sentido de que o ser humano é gnóstico por natureza, ou seja, ele precisa acreditar em algo para se conectar, uma ascese, uma iluminação, mesmo quando se confessa um rematado materialista agnóstico.Por exemplo, a ideologia marxista prescreve que o mundo que sobreviria ao capitalismo após um curto domínio do “governo do proletariado” seria assim nas palavras do próprio Marx: “...Caçando pela manhã, pescando à tarde, cuidando do gado à noite e se engajando em crítica literária após o jantar” – Marx em “A Ideologia Alemã”.Aqui no Brasil, temos dignos representantes desse idealismo em Marcia Tiburi, filósofa e escritora que recentemente se expressou numa entrevista nesses termos sobre o tipo de cultura “ideal” que gostaria de viver no país daqui a cinquenta anos, segundo ela própria um “um delírio utópico positivo”:“... Democracia radical... Ecofeminista... Todo mundo vivendo como hippie, sexo livre, com alimentos livres de agrotóxicos, com comunidades se organizando... No extremo da felicidade a gente voltaria para o Paraíso, todo mundo viveria nu, sem ciúme, sem preconceito, sem posse, sem propriedade privada...” – Marcia Tiburi em entrevista disponível no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=1_LGznJiGQc

Tyler Durden segue exatamente a mesma linha quando se expressa nesses termos sobre o mundo ao qual estava planejando dar a luz:“No mundo que eu vejo, você vai caçar um grande alce nas florestas do Grand Canyon, no Rockfeller Center, vai usar roupas de couro que vão durar a vida inteira, vai escalar as heras na Sears Towers e quando olhar para baixo vai ver figuras minúsculas secando charque nas pistas de alguma autoestrada abandonada” – Tyler Durden – Clube da LutaEssa dicotomia tipicamente platônica entre o que é aparente, transitório e efêmero e o que é essencial, permanente e valioso mostra de modo claro o quanto podemos ser autocontraditórios e reacionários mesmo encampando ideologias e discursos pretensamente progressistas e libertários. 

Não é um perfeito paradoxo contemporâneo que vejamos, após analisar a raiz do discurso inflamado e revolucionário de Durden à luz das declarações de ideologias presentes em nosso meio, reconhecidas  e analisadas como plataformas de transformação do homem e da sociedade, não o super-homem de Nietzche, um ser além do bem e do mal, mas o velho romantismo utópico de Platão que denuncia o materialismo mundano como o mal no mundo, mas sem a ferramenta transformadora do “Conhece-te a ti mesmo”? Tyler Durden é um narcisista como todo revolucionário que antes de se propor a essa tarefa ingrata, acha mais efetiva, ou fácil de realizar, a missão de mudar o mundo a partir do seu ponto de vista (que é o certo) não se importando com o ponto de vista alheio, afinal, ele sabe qual o significado da vida e vai impô-lo a outros mesmo que seja necessário enfiar uma arma na boca de alguém (o que ele, de fato, faz).Voltando a Jack, ele parece reencontrar o caminho para a totalidade de si mesmo e deixa de ser um niilista passivo e toma as rédeas ao perceber que Durden só poderá ser parado por ele mesmo (Sim, Jack percebe que as ideias de Tyler são uma furada e que seu mundo ideal não passava de uma bad trip). 

Jack torna-se o herói de si mesmo matando Durden e assumindo o controle de volta. Ele mata o falso e torna-se ele mesmo o Ubermensh, o verdadeiro, aquele que não precisa de um ditador pessoal, mas que sabe qual caminho seguir a partir dali. O mundo que surge a sua frente, entendendo-o como a totalidade de sua própria psique, não precisa de um lunático como Tyler Durden, mas de alguém que pode criar seus próprios valores e viver por eles.Sintomaticamente, ao seu lado encontra-se aquela que Durden queria matar, o outro lado, a parte sentimental que não tinha lugar no universo caótico do falso Ubermensh ocupado em sua missão destruidora, deixando a impressão de que talvez o único simulacro de salvação a que tenhamos acesso realmente nesse mundo seja a efemeridade de um relacionamento a dois, algo que nunca poderemos encontrar completamente sozinhos. 

Ou talvez... O velho e bom Jack só precisasse mesmo arranjar uma namorada e transar um pouco para cuidar da própria vida e não dar ouvidos ao Tyler Durden que existe em cada um de nós. Vai saber.