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"A Deusa - Uma Fábula Heavy-Metal", é uma junção de duas coisas que me acompanharam a vida toda: o estilo Heavy-Metal de música e o gênero do horror clássico de escritores como Stephen King e H.P.Lovecraf. 

Esse livro é uma homenagem a esses mestres do gênero e também aos mestres da música pesada, como o Black Sabbath, Iron Maiden e Motorhead. Há muitas referências musicais e alusões a vida de astros do rock que aqueles que conhecem o estilo a fundo vão identificar e curtir, mas a história também vai cativar quem curte apenas uma boa história de horror, com muito suspense e sobrenatural. 

Tanto o horror, seja nos livros e no cinema, quanto o estilo heavy-metal de música são gêneros subestimados pela crítica especializada que adora ignora-los ou simplesmente despreza-los como subcategorias apreciadas somente por pessoas de gosto duvidoso, que não possuem feeling para arte, não obstante o sucesso que os dois estilos de fazer arte e música tem junto aos seus públicos. 

O pedantismo intelectual da crítica, porém, nunca foi o norteador principal para o gosto da maioria das pessoas, embora algumas críticas não sejam descabidas e nem é preciso fazer parte da crítica especializada para perceber que os dois gêneros abrigam dentro de si tanto os maiores vícios quanto as maiores virtudes. Podemos criticar, por exemplo, o exagero como um dos vícios recorrentes nos dois estilos. 

CAPA DO PRIMEIRO ÁLBUM DO BLACK SABBATH

É certo que exagerar nos tons, seja do sangue, seja do visual carregado e nos temas violentos e apelativos viraram marcas tanto do horror quanto do heavy-metal e isso faz parte da estética deles. Tanto o horror, no cinema e na literatura, quanto o heavy-metal na música vieram para causar fortes emoções e podem ser considerados são filhos bastardos do romantismo do séc. XVIII, que preconizava exatamente o arroubo das emoções, o ímpeto e o êxtase como catarse e rota de fuga de uma sociedade cada vez mais racionalizada pelo Iluminismo. 

Dentro dessa estética, surgiu a literatura do horror e do gótico de Poe ("O Baile da Morte Vermelha") passando por Shelley ("Frankenstein"), Byron ("Manfredo"), Keats ("Ode a Melancolia") Wilde (O Retrato de Dorian Gray) culminando com B. Stoker e seu imortal Drácula entre muitos outros que desbravaram esse terreno e o preconceito de escrever sobre as paixões negras e o lado oculto do ser humano, ao qual tantos querem esconder e deixar intocado como se não existisse. Essa é a mesma estética e métrica do heavy-metal. 

OSCAR WILDE - AUTOR DO LIVRO "O RETRATO DE DORIAN GREY"

Um estilo de música que aposta no exagero do som elevado à enésima potência pelos amplificadores, com visual agressivo e letras com temática geralmente dirigida para causar impacto, inspiradas exatamente pelo gênero que pode ser considerado seu pai, o horror. Não são poucas as referências que se faz nas letras das bandas de rock pesado à clássicos do horror. Embora o exagero seja parte da receita dos dois estilos, equilibrar os ingredientes da receita pode fazer a diferença para que uma obra, seja musical, literária ou cinematográfica, possa ser encarada a sério ou de modo caricato. 

Essa talvez seja uma das grandes ressalvas da crítica especializada aos dois estilos. Podemos ver obras consideradas como arte, como o Iluminado, de Stephen King, transposto para o cinema de modo magistral por Stanley Kubrick em meio a obras totalmente descartáveis que exageram no sangue e "defeitos especiais" para suprir a falta de criatividade. 

Igualmente, vemos frequentemente nas bandas de heavy-metal um exagero que as aproxima do ridículo, como as bandas de glitter rock americanas ou as bandas de black metal, dois extremos que se tocam, com seu apelo visual gritante para suprir o déficit de habilidade musical. 

No horror, vemos grandes obras surgirem no ramo literário desde Drácula de Bram Stoker e Frankenstein de M. Shelley, passando pelo gênio literário de E. A. Poe, que se tornaram com o passar dos anos clássicos indiscutíveis (mesmo para a crítica) e depois, no começo do século XX pelos mundos tenebrosos do terror cosmológico de Lovecraft até chegarmos ao King do horror contemporâneo que, ele mesmo, o Stephen, elevou a outro patamar com seus livros retratando a vida americana média de jovens em idade escolar e universitária às voltas com carros assassinos, garotas em crise adolescente com poderes mentais perigosos, vampiros em cidadezinhas do interior, hotéis amaldiçoados que ganham vida, etc, etc. 

O sucesso da transposição de suas obras e tantas outras para o cinema prova a força do gênero e seu apelo junto a um público ávido por histórias insólitas e sobrenaturais, uma fome que parece não ter sido refreada mesmo com muitos desses mesmos críticos apressando-se a anunciar a morte do gênero há décadas e dizendo que hoje só se repisam fórmulas datadas. 

O mesmo acontece com o heavy-metal. Não obstante o profundo desprezo da mídia ao gênero, preferindo até mesmo alavancar coisas como o funk como fenômeno cultural de massa, o gênero sobrevive no underground sem apoio algum, aliás como sempre foi. Nas raras vezes em que o estilo ganha a mídia quando algum subgênero alcança o sucesso (como foi com o Guns’n Roses na década de 90 e com o grunge um pouco depois) os incautos ficam surpresos ao ver que o rock barulhento ainda existe e, por vezes, emerge de sua tumba para assombrar as paradas e lista dos mais vendidos. 

Aliás, outro elemento em comum dos dois gêneros é justamente não precisar da exposição da grande mídia para continuar existindo com uma legião de fiéis seguidores que garantem um público fiel e a continuação dos dois estilos nas novas gerações. Isso faz de ambos, gêneros cult por definição, que é caracterizado por seguidores que sabem exatamente o que desejam consumir e onde procurar. 

Isso faz todo sentido para um público que não se guia pelas recomendações da moda e continua apreciando obras antigas de literatura, filmes de terror B dos anos cinquenta, os filmes do Zé do Caixão, e também bandas de garagem obscuras, como poucos discos de nenhum sucesso. 

O sucesso de público e grandes orçamentos, nesses casos, garante aceitação. Isso fica patente quando vemos que o sucesso de uma banda como o Metallica deixou seus membros desconfortáveis como um peixe fora d’água, quase como traidores do estilo que eles mesmos ajudaram a criar dentro do heavy-metal, o thrash. 

O remédio foi voltar para o estilo que os consagrou e para os fãs mais fiéis que não suportavam mais ver a banda tocando rock de arena feito para FMs. Esse apreço também por obras que não são “queridinhas” da mídia especializada e que não recebem as bênçãos dos tubarões do entretenimento valeu aos dois estilos o rótulo de malditos. Parece que isso não é exatamente ruim para quem está sob os auspícios das trevas. 

O culto ao redor de uma banda como o Iron Maiden, por exemplo, que se fez gigante sem abrir concessões em seu som ou imagem, sem precisar se sujeitar a qualquer instrumento de aceitação pública, deveria ser objeto de um estudo sociológico sério e mostra que o gênero sobrevive e respira ares próprios. 

Quando uma estrela do mainstream como Lady Gaga faz questão de mostrar publicamente que fica numa fila de madrugada só para ser uma das primeiras a comprar o álbum “Book of Souls” do Maiden, a mídia esnobe fica meio com cara de cachorro que perdeu o osso enterrado. 

PONTE EM BIRMINGHAM, CIDADE NATAL DO B.S. RENOMEADA COMO "BLACK SABBATH BRIDGE" EM HOMENAGEM À BANDA!

Desde o seu início (que para mim não é outro senão o primeiro disco do Black Sabbath, embora isso não seja ciência exata) o heavy-metal identificou-se imediatamente com o gênero horror – como não lembrar daquela capa do primeiro disco do Sabbath com aquela imagem desfocada de uma mulher que o imaginário supõe ser uma bruxa, embora isso não estivesse escrito em lugar algum? – O som pesado e distorcido da guitarra de Toni Iommi e a voz esganiçada de Ozzy servindo de moldura para as letras de Geezer Butler que só poderia ter como temática coisas sombrias e sobrenaturais, embora não exatamente satânicas, e não aquela coisa de paz e amor hippie de “All you need is love”. The dream is over, baby. It’s the time for some reality. Bring on the Masters of Reality!

 Desde então, os dois andam juntos como queijo e goiabada, se completando mutuamente numa dobradinha única onde o preto, as trevas, caveiras e o sobrenatural é um terreno em comum. 

As bandas de heavy-metal adoram usar os elementos do horror em suas músicas e vídeo-clips e isso ajudou a fixar a imagem do heavy-metal ao satanismo e ocultismo, mas isso também remete a velha mitologia que já rondava as origens do rock'nroll, quando o cantor de blues Robert Johnson perambulava pelo Mississipi e a história de que havia vendido a alma ao diabo para aprender a tocar do modo como tocava já se espalhava como lenda. 

ROBERT JOHNSON

É certo que tanto no horror quanto no heavy-metal alguns levaram a sério demais essa associação, mas na maioria das vezes, principalmente até meados dos anos 80, não tinha maiores implicações, e o surgimento do black metal e suas vertentes, principalmente a nórdica, mostrava até onde algumas mentes vazias podem chegar, transformando diversão em algo doentio. Isso pode ser conferido no recente filme "Lords of Chaos" de 2018 que conta a história de alguns jovens acéfalos que queimaram umas igrejas e acabaram matando uns aos outros e mereceram um filme por isso. 

HOW TO MAKE A MONSTER - FILME B DE TERROR DOS ANOS 50

THE CRINSOM GHOST - ÍCONE POP

 O uso de elementos de horror com humor negro está patente no clip “The Number of the Beast”, o clássico do Iron com seu refrão que gela o sangue das beatas (Six, six, six) onde vemos muitas referências a filmes da década de 40/50, como “How to make a Monster” e “The Crinsom Ghost”, que também inspirou o Misfits a adotar sua caveira como mascote. 

O resultado está mais para algo engraçado, no melhor estilo do humor negro britânico, do que assustador por ser bem tosco, na verdade (você acha que eles tinham a intenção de assustar alguém com aquele asal que vira monstro dançando valsa no meio do solo do Dave Murray?). 

Mas mesmo assim, a banda foi acusada de promover o satanismo. De qualquer forma, o diabo sempre foi chamado de pai do rock mesmo e não há nenhuma declaração dele que eu saiba negando isso. Embora a crítica especializada torça seu nariz esnobe para os dois gêneros, está claro que eles não só se mantêm muito bem hoje em dia na época do streaming, com muitos filmes e séries de qualidade nos canais ondemand e com as bandas de metal fazendo estardalhaço e barulho de qualidade nas redes. 

CLIP DA MÚSICA THE NUMBER OF THE BEAST DO IRON MAIDEN

O horror é um gênero de literatura que nos deus escritores maravilhosos assim como o metal tem em suas fileiras alguns dos melhores músicos da história do rock e também da atualidade. 

Um dos meus passatempos preferidos ultimamente tem sido ver uma das febres atuais do Youtube: os vídeos de reação onde pessoas, que podem ser profissionais do ramo musical que ensinam técnicas de canto erudito ou de composição, tem seu primeiro contato com bandas de metal que usam elementos sinfônicos, o chamado symphonic metal, e sua reação é sempre do tipo: “Uau!Como foi que eu perdi isso? Quem são esses caras?”; 

Isso acontece especialmente em relação à banda finlandesa Nightwish. O Nightwish é praticamente um desconhecido de quem não está por dentro da cena metal, mas uma banda que alcançou uma notoriedade tal nos últimos tempos que rivaliza somente em termos de devoção do seu público com autênticos cultos metálicos como Iron ou Metallica. 

A BANDA FINLANDESA NIGHTWISH

Eles são a prova da universalidade do gênero heavy-metal, pois são originários de uma cidadezinha do interior da Finlandia, Kitee, conhecida também como “lugar onde o judas perdeu as botas” ou “lugar onde o vento faz a curva”. 

O Nightwish também deveria ser alvo de uma investigação mais profunda por aqueles que procuram fenômenos culturais na web. São centenas ( senão na casa do milhar) de vídeos no You Tube de pessoas ligadas a área do ensino de técnicas vocais e canto erudito bem como de composição reagindo à performance da holandesa nascida em 1981 sendo que boa parte deles se refere a apresentação da banda no festival Wacken Open Air (tido como o maior festival do mundo todo dedicado exclusivamente ao heavy-metal e todas as suas vertentes que tem lugar anualmente na Alemanha) de 2013, onde foram os headliners num show antológico que virou o DVD “Showtime/Storytime”. 

Especificamente, a performance da banda toda, na emblemática música “Ghost Love Score”, que praticamente define um estilo, arrancam expressões de, primeiro, assombro; segundo: assombro e, terceiro: rendição completa e irrestrita em meio a declarações dos desavisados que nunca tiveram um contato maior com o estilo e do que ele pode proporcionar, reações do tipo “De onde eles vieram?”; “Como eu perdi isso?”; ou, mais comum, “Quem é essa deusa viking?”.

A proposta do Nightwish, embora venha embalada num som elaborado com camadas simfônicas, não é diferente de outras bandas de heavy-metal como o Black Sabbath ou Iron Maiden, que também tem um grande apelo estético e faz muitas referências em suas músicas aos livros e a História. É uma viagem épica a um mundo povoado por um sentido mágico, onde vivem as lendas, os dragões, os magos, os elfos, os anões e hobbits, e você se vê numa jornada para um lugar onde ainda existe um senso de aventura na vida e na existência, diferente desse mundo desarraigado de tudo que é sagrado, esvaziado da essência vital humana que não é simplesmente material. 

 É disso que sempre tratou o heavy-metal desde o seu início e é precisamente por isso que o gênero é tão ligado à literatura fantástica e temas que outros estilos não ousam tocar. 


FLOOR EM AÇÃO: UMA DEUSA ENTRE NÓS?

Desde o ocultismo que denunciava a realidade distorcida e feia do homem atual do Black Sabbath, às jornadas míticas de Ronnie James Dio e suas reflexões esotéricas, passando pelas histórias contadas nas canções do Iron Maiden baseadas em livros de E.A.Poe, mitologia egípcia e ficções como Duna, vemos que o heavy-metal propõe uma viagem, uma viagem pelos mundos fantásticos exatamente como a literatura faz. 

E, exatamente por isso, é acusado de ser alienado e escapista. 

Ora, como a literatura sempre fez, nada melhor que um bom escapismo para fugir dessa realidade tosca a que somos submetidos todos os dias pelos noticiários. Como disse Joseph Campbell em “O Poder do Mito”, basta ler um jornal para saber o que significa viver numa sociedade sem rituais, ou seja, uma sociedade que não dá valor ao mito, aos arquétipos mais profundos que forjaram os valores maiores da civilização ocidental. 

Mas isso é outra história. Voltando ao Nightwish, a performance da banda e sua terceira cantora e às reações que se seguiram ao impacto que o vídeo está causando ainda hoje na internet, com tantas exclamações de que “Só pode ser uma deusa!”, seguiu-se uma vaga ideia que ficou ribombando em minha cabeça. “Ela realmente canta e se parece com a encarnação de uma valquíria ou coisa que o valha. E se esse talento todo fosse realmente algo sobrenatural? E se, para ter todo esse poder vocal e sucesso, ela tivesse feito um pacto?”. 

O tema do pacto com o diabo para obter sucesso é recorrente no gênero horror e cabe como uma luva para a história de uma banda de rock pesado. E é aí que começa a história de “A Deusa”. 

Não é uma ideia muito original, confesso, mas o uso de chavões ou clichês é comum dentro do horror, como já foi dito,  sendo mesmo quase inevitável, mas a diferença está em como isso é usado dentro da história. 

Pode ser apenas um clichê mastigado ou pode ser algo usado com propriedade. Quem vai definir isso é o leitor da obra. A personagem principal da trama é Loren Kuniakis e ela foi inspirada, sim, em Floor Jansen, mas logicamente é só uma influência. 

Como Floor, ela é alta (1,80 cm) e vem da Holanda e canta como o diabo. Mas as semelhanças param por aí, porque até onde sei, Floor tem um estilo de vida saudável, enquanto Loren é descrita no livro como o “Ozzy Osbourne de saias”. O Ozzy dos velhos tempos, é claro. 

Eu havia acabado de lançar meu primeiro livro “Anomia – O Mistério da Injustiça” há pouco tempo, um livro que levou bastante tempo para ser escrito porque tinha uma estrutura mais complicada e que gastou bastante tempo com pesquisas e eu estava a fim de escrever algo em outra linha, embora mantendo-me na literatura fantástica, e achei que a ideia era boa: uma história clássica de horror, numa clara homenagem a King e Lovecraft, mais direta, sem muitos floreios e que não demandasse muito tempo para ficar pronta. Em suma, diversão. 

Bom, a coluna central da história já estava sendo posta de pé: a clássica história de um pacto feito com uma entidade em busca de sucesso e glória, elementos de possessão demoníaca e muito sangue e nojeira splatter bem ao gosto do gênero, além da ambientação musical para quem gosta do mundo subversivo do rock underground. Alguns clichés são inevitáveis e, na verdade, bastante desejáveis para situar exatamente onde você quer que sua obra se insira. 

Ao fazer algumas pesquisas relacionadas com o universo sobrenatural das ocorrências de possessão e paranormalidade, me deparei com algumas histórias interessantes que caiam como luva para o enredo. 

No inicio do século passado, houve uma febre mundial por experiências que visavam provar a realidade das experiências paranormais envolvendo espiritualistas e médiuns em sessões nas quais se pretendia provar a realidade extramatéria invocando espíritos de falecidos e convidando-os a se manifestar de maneira inequívoca produzindo provas físicas e concretas de sua manifestação.

SIR WILLIAM CROOKES

 

Essa febre teve o envolvimento de pessoas ilustres na época e não só curiosos desqualificados como muitos podem pensar. 

 Um deles foi William Crookes, químico e físico laureado com vários prêmios, nomeado cavaleiro na terra da Rainha por sua distinção na Ciência, membro da Royal Society , descobridor do elemento químico de número 81 da Tabela Periódica (o tálio), inventor do radiômetro de Crookes e um dos primeiros a fazer experimentos com tubos de raios catódicos, que mais tarde culminaria no invento da televisão. 

Um homem desses parece estar acima de qualquer suspeita se envolver-se em experimentos que visam provar cientificamente fenômenos de natureza paranormal, não? Não. A distinção de Crookes na Ciência e sua reputação se viram abaladas de modo decisivo por seu envolvimento na causa espiritualista e em experimentos que só conseguiram manchar seu currículo até então invejável. 

 Depois de Crookes, outro cientista renomado que se envolveu na questão paranormal foi Charles Robert Richet, descobridor da soroterapia e da anafilaxia, e laureado com nada menos do que um Nobel de Medicina. Seus estudos sobre os fenômenos encontrados nessas experiências o levaram a cunhar um termo muito usado nesse meio: “ectoplasma” seria a substancia fantasmagórica que emana do médium em contato com alguma entidade extracorpórea. 

O CIENTISTA NOBEL CHARLES RICHET

Charles nunca admitiu que houve fraude em seus experimentos e sempre alegou pautar-se por parâmetros exclusivamente científicos, embora sua palavra e sua reputação nunca tenham sido suficientes para afastar as dúvidas levantadas pelas fotos pouco claras que publicou como prova deles. 

Os cientistas de “mente pura” sempre abominaram qualquer ligação da Ciência com a metafísica e não se sabe se suas denuncias de que tudo não passa de embuste de pessoas comprometidas ideologicamente com o espiritismo são motivadas apenas por sua própria ideologia materialista da vida. Parece que tais assuntos estão condenados a um eterno impasse, visto que para o crente, nenhuma prova é necessária, e para o descrente nenhuma prova é suficiente.

No livro, faço menção o um caso que ficou bastante conhecido e que foi investigado tanto por Crookes quanto por outros dois médiuns americanos e também pelo criador de Sherlock Holmes, sir Arthur Conan Doyle (!!), que era um entusiasmado estudioso do espiritismo. Esse caso quase arruinou totalmente a carreira de Crookes e ficou muito famoso na época: trata-se do caso de Katie King, o espírito de uma mulher que se materializava em forma de ectoplasma através da ação da médium Florence Cook. A forma, segundo algumas testemunhas, em várias ocasiões, teria andado entre os presentes, interagido com eles, permitindo até mesmo ser pesada e medida (!!) como se fosse uma pessoa real.  

O SUPOSTO ECTOPLASMA MATERIALIZADO DE  KATIE KING

A forma, segundo algumas testemunhas, em várias ocasiões, teria andado entre os presentes, interagido com eles, permitindo até mesmo ser pesada e medida (!!) como se fosse uma pessoa real. Mas isso é apenas substrato para o escritor. Não entro no mérito da questão. Para mim, o fato que interessa é que as fotos do caso são bem assustadoras e toda história é bizarra demais para não ser aproveitada de alguma forma. Restava para eu saber por qual tipo de espírito nossa heroína seria possuída. 

Certamente, não um espírito qualquer. Certamente, também, um mero diabrete qualquer também seria insatisfatório demais. Por que não uma deusa? Sim, uma entidade que não se perfilaria ao lado de diabinhos subalternos, mas seria ela mesma a comandante do seu próprio inferno. 

A candidatura recaiu imediatamente sobre a mítica rainha e deusa mesopotâmica Semíramis, nome helenizado séculos mais tarde, originalmente Shamu-ramat. Sem dúvida, a rainha assíria foi uma das maiores e mais poderosas mulheres que já existiram ao lado de Cleópatra. 

ESTELA DE INANA/ISHTAR

Embora a história de sua vida real se perca em meios às lendas que giram em torno de seu nome, Shamu-ramat realmente existiu conforme indicam achados arqueológicos na antiga cidade de Ninrud e também em Assur, no Iraque, e Kizkapanli, na Turquia, onde seu nome foi encontrado em estátuas de deuses e estelas comemorativas, indicando que ela realmente reinou entre o nono e oitavo séculos A.C. no Império Assírio tendo sido casada com Shamshi-Adad e teve com ele um filho que também reinou após a morte do marido, Adad-nirari. 

Só isso já revela que ela era uma mulher notável, pois o costume da época não permitia que uma mulher subisse ao trono e seria natural esperar que alguém tentasse toma-lo, pois o filho do imperador morto era muito novo na época de sua morte e o governo, de fato, caiu sobre os ombros de Shamu-ramat que não fugiu da responsabilidade tendo iniciado, ao que parece, uma série de projetos de construção no império e campanhas militares bem sucedidas. 

O MITO DE SEMÍRAMIS ULTRAPASSOU OS SÉCULOS

 Contudo, não se sabe exatamente porque, a história de Shamu-ramat adquiriu proporções míticas no decorrer do tempo e seu nome foi passando para outras culturas e chegou até nossos dias exercendo um fascínio por causa do mistério que cerca as reais condições que elevaram uma mulher, num tempo onde a força masculina era exercida sem reservas, a ser elevada a condição de deusa venerada pelos súditos de um dos maiores impérios da História. 

Mas há pistas que indicam que a elevação da condição de uma mulher extremamente capaz a deusa foi obra de dois dos maiores historiadores gregos, Heródoto e Diodoro Siculo, que, se não inventaram nada, reproduziram em terras helênicas lendas e mitos que circulavam pelas bandas do Irã e Iraque já naquelas épocas. Outro historiador, Estrabão, afirma que ela construiu os jardins da Babilônia, outra alegação sem fundamento histórico. 

Essas histórias, que não possuem nada de históricas, ligam a rainha Shamu-ramat ao mito da deusa Inana, ou Ishtar, a deusa da fertilidade da Mesopotâmia que passou para o panteão greco-romano respectivamente como Afrodite/Diana. Deusas da fertilidade e do amor sempre tiveram um grande apelo junto ao público e a personalidade de Inana retratada nos mitos sumério/acádios ajudam muito a fixar essa imagem. 

Ela é impulsiva, heroica, defende os fracos, é vingativa e passional, desce ao inferno para salvar o amado, enfim, uma verdadeira rock star. Atitude essa também que nunca faltou a Shamu-ramat. Logo, a identificação entre as duas parecia lógica e natural, embora o tempo histórico da vida da rainha seja muito posterior ao mito que remonta ao início da civilização sumério/acadiana como mostra Zecharia Sitchin em seu emblemático livro “O 12º Planeta”. 

Não se sabe até onde mito e realidade realmente se encontram, mas a Shamu-ramat coube, além da fama de ser adorada como deusa, acusações de não ter escrúpulos para manter-se no poder sendo até mesmo acusada de ter ludibriado o marido (com quem teria sido obrigada a casar por ele ter se encantado com sua beleza estonteante) numa aposta onde ele daria a ela sua coroa por cinco dias para que ela provasse que seria uma boa administradora. 

Ela aproveitou o momento para mata-lo e colocar a coroa sobre a cabeça do filho. Também é acusada de ter desposado o próprio filho para manter-se no poder, dizendo que seria a reencarnação do marido morto, mas disso não há referências históricas. 

Histórico mesmo é que seu mito sobreviveu e chegou até os dias de Dante, que a colocou no seu inferno por seus dotes sensuais aflorados, o sarcástico Voltaire escreveu uma tragédia de cinco atos com seu nome em 1748 que depois virou uma ópera pelas mãos do compositor Rossini em 1823. 

SEMIRAMIDE - ÓPERA DE ROSSINI 

Como toda personalidade que vira mito, não existe uma tradição histórica que aponte como Shamu-ramat morreu e seu fim, assim como sua origem, continua uma incógnita. Talvez ela tenha sido elevada realmente entre os deuses de outrora. 

Talvez ela tenha descido de vez ao submundo de onde escapou da primeira vez. Talvez, só talvez, ela realmente tenha sobrevivido em algum lugar entre os mundos, nem viva nem morta, um lugar de onde pode ainda emergir um dia se o seu nome voltar a ser invocado como retratado nas páginas de “A Deusa – Uma Fábula Heavy-Metal”. Finalizando, creio que “A Deusa” pode ser uma boa diversão para os amantes do gênero horror tanto quanto para os apreciadores do bom, velho e maldito heavy-metal. 

Eu pelo menos me diverti bastante fazendo-o e criando referências por todo o livro que remetem a bandas e personalidades desse meio. Espero que aqueles que o lerem divirtam-se tanto quanto eu.


ESTÁTUA EM MÁRMORE DE SEMÍRAMIS - OBRA EXPOSTA NO MUSEU DE DALLAS